Caso Leonardo Pareja: promotor feito de refém durante rebelião em presídio lembra tensão após 30 anos: 'Certeza de que não sairia vivo'
28/03/2026
(Foto: Reprodução) Promotor refém em rebelião de Pareja relembra tensão: ‘Certeza de que não sairia vivo’
Trinta anos após viver dias de tensão como refém dentro de um presídio em Goiânia, o promotor de Justiça Haroldo Caetano relembra a experiência que marcou sua trajetória no sistema prisional de Goiás. À época, ele foi mantido em cativeiro durante uma rebelião que tomou o então Centro Penitenciário de Atividades Industriais do Estado de Goiás (Cepaigo).
A rebelião foi liderada por Leonardo Rodrigues Pareja, um dos criminosos mais conhecidos do país na década de 1990. Considerado um preso midiático, ele ganhou notoriedade após sequestrar, em 1995, uma adolescente de 16 anos, sobrinha do então senador Antônio Carlos Magalhães, em Salvador. Após três dias de cativeiro, liberou a vítima, fugiu e mobilizou operações policiais em diferentes estados, desafiando as autoridades até se entregar em Goiás.
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Quem foi Leonardo Pareja
Já preso, Pareja comandou o motim no Cepaigo durante a visita de autoridades à unidade. A rebelião durou seis dias e resultou na tomada de reféns, incluindo integrantes do Judiciário, da segurança pública e equipes de reportagem, como a da TV Anhanguera, que também ficou impedida de deixar o local.
A crise só terminou após os detentos deixarem o presídio em comboio, levando reféns, armas e dinheiro. Durante a fuga, Pareja chegou a parar em um bar, onde comprou bebidas, cigarros e até deu autógrafos, em um episódio que reforçou sua postura desafiadora. Ele foi recapturado no dia seguinte, em Porangatu, no norte do estado. Meses depois, acabou assassinado dentro do sistema prisional.
O promotor Haroldo Caetano tinha 26 anos — hoje, aos 56 — e já atuava na área de execução penal quando participou de um mutirão carcerário na unidade. A visita de autoridades foi interrompida pelo motim, e ele passou a integrar o grupo de reféns. As memórias desse período agora foram reunidas no livro A rebelião, que entra em pré-venda neste mês.
“Cada segundo parecia uma eternidade. Em mais de um momento eu tive a certeza de que não sairia dali vivo”, afirmou ao g1.
Leonardo Pareja durante rebelião no antigo Cepaigo, em Aparecida de Goiânia, Goiás
Lorisvaldo de Paula/O Popular
‘Parecia um filme, até virar pânico’
O promotor conta que, nos primeiros momentos, a dimensão da situação era difícil de compreender. A percepção de que o cenário havia saído do controle veio com a escalada da violência dentro da unidade. Segundo ele, os detentos passaram a agir com ameaças constantes, exibindo armas improvisadas e impondo medo aos reféns.
“Havia reféns sendo arrastados pelo pescoço, presos com chuchos nas mãos, gritos… Os estrondos de grades e cadeados sendo quebrados eram ensurdecedores. Era um cenário de pânico”, relatou.
Durante os dias em que permaneceu sob poder dos presos, Caetano afirma que a rotina foi marcada por tensão constante, incerteza e desgaste físico.
“Havia comida e, depois de um tempo, os presos criaram uma rotina, com alimentação e até banho de sol para os reféns. Mas eu praticamente não conseguia comer. Era uma ansiedade de todos os lados”, contou.
BDG relembra cobertura da fuga, captura e morte de Leonardo Pareja
Segundo ele, os detentos pressionavam por fuga, enquanto os reféns viviam na expectativa de libertação. Ao deixar o presídio, o promotor havia perdido cerca de oito quilos.
“A rebelião não é algo que se resume facilmente. Foi um contraste entre a violência extrema e pequenos gestos que, de alguma forma, traziam esperança”, disse.
Mesmo dentro do presídio, os reféns conseguiam acompanhar parte do que acontecia fora da unidade.
“Havia uma TV pequena na cela. A gente assistia às negociações, às entrevistas. Era assim que entendíamos o que estava acontecendo do lado de fora”, afirmou.
Haroldo Caetano durante a rebelião no Cepaigo, em 1996, quando foi feito refém, e atualmente, aos 56 anos
Reprodução/ Layza Vasconcelos e Arquivo Pessoal/Haroldo Caetano
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Leonardo Pareja. À esquerda, ele concede entrevista à TV Anhanguera durante o motim
Reprodução/TV Anhanguera
Um episódio que mudou sua visão
Para o promotor, a experiência vivida dentro do presídio ampliou sua percepção sobre o sistema prisional e revelou problemas que ainda persistem.
“A rebelião expôs a precariedade das condições e o desrespeito a direitos humanos básicos. Existe uma distância muito grande entre o que o sistema deveria ser e o que ele é na prática”, afirmou.
Ele também destaca a falta de visibilidade sobre o que acontece dentro das unidades prisionais.
“A invisibilidade permite que situações violentas se perpetuem. É preciso conhecer as histórias das pessoas que estão ali, suas contradições e sua condição humana”, disse.
Nicola Limongi, então diretor do Cepaigo, chora durante a rebelião que marcou o sistema prisional de Goiás, em 1996
Reprodução/TV Anhanguera
Memórias que seguem vivas
Segundo Caetano, escrever o livro foi uma forma de elaborar a experiência e registrar um episódio que não deve ser esquecido. A obra será lançada no dia 15 de abril, às 19h, na Assembleia Legislativa de Goiás.
“Essas memórias ainda me alcançam com clareza desconcertante. Ao longo dos anos, entendi que não era só uma vivência pessoal. Era algo que precisava ser pensado e compartilhado”, afirmou.
Entrada do Cepaigo, em Aparecida de Goiânia, onde ocorreu a rebelião liderada por Leonardo Pareja em 1996
Reprodução/TV Anhanguera
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