Césio-137: maior acidente radiológico da história deixou 4 mortos, 6 mil toneladas de lixo e ainda terá impacto por mais 200 anos
23/03/2026
(Foto: Reprodução) Após 30 anos, vítimas do acidente com césio-137 dizem sofrer com a falta de apoio médico
O maior acidente radiológico da história, ocorrido em Goiânia em setembro de 1987, deixou quatro mortos e acumulou mais de 6 mil toneladas de lixo. Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e divulgada pelo Governo de Goiás, cerca de 10 mil pessoas residiam ou trabalhavam nas áreas próximas onde o acidente aconteceu.
Mesmo após quase 40 anos do ocorrido, mais de mil pessoas ainda frequentam o Centro de Assistência ao Radioacidentado (Cara), órgão criado em 2011 e que assumiu o lugar da extinta Superintendência Leide das Neves (Suleide), prestando apoio à população afetada pelo material radioativo césio-137.
CÉSIO-137: Veja página especial sobre o acide
As medidas tomadas para conter a radiação em áreas afetadas ainda podem ser vistas nitidamente pela cidade. Entre os locais, estão os ferros-velhos por onde as partes do equipamento de radiologia encontrado com a substância passaram, além da casa de uma das famílias afetadas (veja abaixo).
Pontos contaminados pelo Césio-137 que seguem monitorados em Goiânia
Thiago Oliveira/Arte TV Anhanguera
As toneladas de lixo acumuladas durante a descontaminação, incluindo roupas, utensílios domésticos e materiais de construção, foram levadas para um depósito em Abadia de Goiás, onde foram enterrados e concretados.
Pesquisadores acreditam que, mesmo com a redução da radiação nos resíduos, os riscos só devem desaparecer totalmente após 200 anos.
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Depósito onde estão enterrados os rejeitos do césio-137, em Abadia de Goiás
Sílvio Túlio/G1
Acidente com césio-137
O incidente com césio-137, um material radioativo usado em máquinas de raio-x, aconteceu em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores de recicláveis retiraram e desmontaram parte de um aparelho de uma clínica abandonada (veja abaixo).
Equipamento de radiologia onde foi encontrada a cápsula do Césio-137
Divulgação/Cnen
O objeto foi vendido a um ferro-velho, em que Devair Alves Ferreira era dono, localizado no Setor Aeroporto, onde mais pessoas terminaram de desmontá-lo.
Seis dias depois, seu irmão, Ivo Alves Ferreira, viu a pedra que brilhava à noite. Sem saber que a substância era radioativa e, encantado, levou fragmentos para casa. As 19 gramas do material estavam dentro do cabeçote de chumbo do aparelho.
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Além dele, um amigo de Devair, Ernesto Fabiano, também havia levado parte do material para casa e deu um pouco do pó para o irmão, Edson Fabiano, que levou o “presente” para a residência dele, também no Setor Aeroporto.
No mesmo mês, começaram uma série de adoecimentos na região. Foi quando Maria Gabriela Ferreira, uma mulher descrita por quem a conhecia como uma pessoa que vivia pela família, teve um papel crucial na história. Foi ela a primeira pessoa a desconfiar que um objeto encontrado no ferro-velho da família poderia estar ligado aos sintomas que afetavam parentes, vizinhos e até animais de estimação.
Mortes relacionadas
Maria Gabriela, de 35 anos, e Leide das Neves, de 6, morreram vítimas do césio-137, em Goiás
Reprodução/TV Anhanguera
Maria Gabriela morreu pouco mais de um mês depois, aos 37 anos, vítima da mesma contaminação que ajudou a revelar. No mesmo dia, sua sobrinha, Leide das Neves, também faleceu em decorrência do seu contato direto com o material radioativo, aos 6 anos.
A atitude impediu que o material radioativo se espalhasse ainda mais pela cidade.
As outras duas mortes confirmadas em decorrência do contato com o césio-137 foram dos funcionários do ferro-velho Israel Batista dos Santos, de 20 anos, no dia 27 de outubro, e Admilson Alves de Souza, de 18 anos, que morreu no dia seguinte.
C.A.R.A
Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados com Césio-137 em Goiânia, em Goiás
Rafael Oliveira/g1
O Centro de Atendimento aos Radioacidentados (Cara) é o órgão da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) responsável pelos atendimentos às vítimas do césio-137.
O Cara surgiu da antiga Superintendência Leide das Neves (Suleide) e dividiu os pacientes em três grupos: o de pacientes que apresentaram mais de 20 rads no corpo, que é a unidade de medida de quantidade de radiação identificada; os com menos de 20 rads; e o formado por vizinhos do local onde houve o acidente e trabalhadores que atuaram na área contaminada.
O órgão continua em funcionamento até os dias atuais, prestando assistência às vítimas diretas e indiretas do acidente.
Remoção de lixo radioativo de área contaminada pelo césio-137, em Goiânia, Goiás
Carlos Costa/ O Popular
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