Chernobyl, 40 anos: em meio a guerras, quais as chances de um novo desastre nuclear?
26/04/2026
(Foto: Reprodução) COLOCAR VÍDEO: 14557094
Quatro décadas após o desastre de Chernobyl, o maior da história, o temor de uma nova catástrofe nuclear volta a ganhar força diante de duas guerras em curso.
Muito perto das frentes de combate entre Rússia e Ucrânia, a usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, tem vivido dias de tensão. Ao menos duas vezes neste mês de abril, as instalações ficaram completamente sem energia.
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"Nesta manhã, a central nuclear de Zaporizhzhia ficou completamente sem energia externa pela décima terceira vez desde o início do conflito armado, após a última linha de transmissão ter sido desconectada", disse a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), em um comunicado no dia 14.
"Os geradores a diesel de emergência da central foram imediatamente ativados para fornecer a energia necessária para o funcionamento essencial das funções de segurança."
Ao mesmo tempo, instalações nucleares no Irã estão no centro das tensões citadas por EUA e Israel para iniciar uma guerra contra Teerã - um conflito que permanece sem solução.
Ambas as situações extremas levantam a questão: existe a chance de sermos testemunhas de um desastre nuclear de grandes proporções?
A pergunta ecoa mais fortemente neste domingo (26), quando se completam 40 anos da tragédia de Chernobyl, o mais grave acidente nuclear de todos os tempos.
Esta foto de arquivo de 26 de abril de 1986 mostra uma vista aérea da usina nuclear ucraniana de Chernobyl, com danos causados por uma explosão e incêndio no reator quatro, que enviou grandes quantidades de material radioativo para a atmosfera
AP Photo/ Volodymyr Repik
Vale notar, no entanto, que as circunstâncias do desastre de 26 de abril de 1986 são bastante diferentes dos riscos que a AIEA enxerga nas instalações nucleares em 2026.
Logo de início, o incidente em Chernobyl ocorreu em tempos de paz, fruto de falhas de projeto, de pressões indevidas e decisões equivocadas dos coordenadores, além de erros dos operadores.
"Não é correto dizer que qualquer reator pode explodir como Chernobyl", diz Renato Cotta, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
"Essa combinação de fatores não está presente nos reatores modernos, o que reduz drasticamente a probabilidade de um evento semelhante hoje, embora não elimine o risco de acidentes graves em cenários extremos, como guerras", ele explica.
Para entender o que ocorreu em Chernobyl há 40 anos e por que a situação dificilmente deve ser repetir, é preciso entender a diferença entre os projetos das usinas nucleares.
Os quatro reatores instalados na Usina Nuclear de Chernobyl V. I. Lênin, na antiga União Soviética, são do modelo RBMK. Já os seis reatores de Zaporizhzhia pertencem a uma outra família, a VVER.
Por coincidência, os reatores instalados no Irã também são do modelo russo VVER.
Ambos foram construídos com o mesmo objetivo, de permitir a fissão nuclear controlada de urânio, capturar a energia térmica produzida e transformá-la em energia elétrica. Para isso, porém, elas usam uma série de mecanismos distintos – cada um com suas vantagens e desvantagens.
Soldado russo vigia acesso à central nuclear de Zaporizhzhia, na Ucrânia, em 2023
Alexander Ermochenko/ Reuters
Reatores ‘irmãos’
Os desenhos dos reatores nucleares de Chernobyl (RBMK) e os de Zaporizhzhia (VVER) são radicalmente diferentes, mas têm origens comuns. Ambos nasceram entre os anos 1960 e 1970, das pranchetas do prestigiado Instituto Kurchatov, o centro de pesquisas nucleares soviético, em Moscou.
O VVER é um reator de água pressurizada. Nestes modelos, a água é utilizada tanto para a refrigeração do sistema quanto para a moderação das reações nucleares (o controle da intensidade e da velocidade em que elas acontecem).
Isso faz com que o VVER possua um coeficiente de vazio negativo. O coeficiente de vazio é um parâmetro importantíssimo na engenharia nuclear: ele é um número usado para estimar o quanto a reatividade muda dentro do reator conforme se formam “espaços vazios” dentro dele – geralmente na forma de bolhas de vapor.
Já o RBMK é um reator que utiliza água para refrigeração e grafite para moderar as reações nucleares. A moderação por grafite e outros elementos do projeto fazem com que esses reatores, por sua vez, tenham um coeficiente de vazio não só positivo, mas muito alto.
Em geral, coeficientes de vazio negativos tornam o reator mais estável e previsível, embora esse esteja longe de ser o único fator que determina a segurança de uma usina nuclear.
"Zaporizhzhia utiliza seis reatores VVER-1000, moderados e refrigerados por água pressurizada. Esse tipo de reator apresenta coeficiente de reatividade negativo, ou seja, tende a se autoestabilizar. Além disso, conta com sistemas de resfriamento de emergência e uma estrutura de contenção em concreto armado projetada para resistir a eventos externos e limitar a liberação de material radioativo.", explica Cotta.
“Já em Chernobyl se utilizava um reator RBMK-1000, moderado a grafite e refrigerado a água. Esse projeto apresentava características críticas, como coeficiente de reatividade positivo, que aumenta a reatividade com a formação de vapor. Isso podia levar a instabilidades, especialmente em baixa potência. Além disso, o reator não possuía uma estrutura de contenção robusta.”
Opção pelo RBMK
De posse desses dois projetos, a União Soviética optou por priorizar a operação dos reatores RBMK, por uma série de fatores:
As usinas RBMK eram mais baratas de construir e operar.
Elas permitiam o uso de urânio enriquecido a 1,8%, muito mais barato do que o urânio enriquecido a 4% usado pelos reatores VVER.
O desenho do RBMK permite o reabastecimento em operação e, consequentemente, a fácil remoção de plutônio.
O plutônio-239 é um subproduto das usinas nucleares que utilizam urânio como combustível. Diferentemente dos VVER, o RBMK permite remover combustível contendo plutônio-239 sem parada do reator. Dessa forma, as usinas teriam dupla função, a de gerar energia e também de fornecer material para o programa armamentista soviético.
Como os reatores VVER utilizam água sob alta pressão, as usinas são construídas com paredes reforçadas. Já as usinas RBMK prescindem da alta pressurização, e o tamanho delas tornava o custo das paredes externas reforçadas proibitivo. A União Soviética optou por erguê-las sem o reforço – o que, em Chernobyl, provou ser um grave erro.
Teste de segurança e 'envenenamento do reator'
O projeto dos RBMK colocou uma dúvida nos engenheiros soviéticos: em caso de perda total de energia externa, os geradores a diesel seriam suficientes para manter a água circulando no reator e impedir um superaquecimento e fusão do núcleo?
A fusão do núcleo é uma das piores situações pela qual um reator nuclear pode passar.
Caso ele seja desligado de repente, o calor residual pode derreter as pastilhas de combustível, causando danos internos e, possivelmente, explosões – como de fato ocorreu em Fukushima, em 2011. O material derretido acumulado no reator é chamado de “corium” e é altamente radioativo.
Pensando numa situação do tipo, foi planejado um teste para saber se as turbinas do reator forneceriam energia suficiente para manter a circulação de água enquanto os geradores a diesel ligavam. Esses testes foram realizados em 1982, 1984 e 1985 sem resultados convincentes.
Por isso, o reator 4 de Chernobyl foi escolhido para um novo teste de segurança em 25 de abril de 1986. No entanto, a central de energia pediu um adiamento, para suprir as demandas energéticas de Kiev.
O teste recaiu sobre o turno da noite dos funcionários da usina, que foram avisados do procedimento de última hora.
Trabalhadores da usina nuclear de Chernobyl, fotografados em 1983
Sovfoto/Universal Images Group/Shutterstock
Esse foi o início de uma sequência de erros fatais na condução do teste. Sem preparo suficiente para o teste, pouco após a meia-noite do dia 26, a equipe iniciou a diminuição da potência gradual do reator 4.
Para surpresa dos funcionários, no entanto, a potência caiu drasticamente, abaixo do previsto para a realização do teste. As investigações determinaram que isso ocorreu por um fenômeno chamado “envenenamento de reator”: a velocidade menor provocou o acúmulo de um elemento que diminui a reatividade, deflagrando um círculo vicioso.
Para aumentar a reatividade, os controladores retiraram a maior parte do grafite – o moderador – de dentro do reator. O grafite estava colocado na ponta das barras de controle que desciam no reator se fosse necessária mais moderação, e subiam em caso contrário.
A retirada quase total das barras deixou o reator numa situação extremamente instável e mais sensível às bolhas de vapor.
O botão AZ-5
O teste teve início, e o vapor começou a se acumular dentro do reator. Exatamente à 1h23min40s da madrugada, um dos operadores da sala de controle decidiu interromper a operação apertando o botão AZ-5, que se tornou famoso após a tragédia.
A função do AZ-5 era iniciar um procedimento de interrupção de emergência do reator. Quando o botão é pressionado, ele insere todas as barras de controle no reator simultaneamente.
Aqui entra uma falha de projeto grave dos reatores RBMK: o grafite, moderador da reação, ficava na ponta das barras. Quando totalmente recolhidas, um espaço preenchido com água separava as barras do reator. A água é um absorvedor de nêutrons mais efetivo que o grafite – quanto menos nêutrons disponíveis, menor é a taxa de reatividade.
Como muitas barras estavam recolhidas, várias pontas de grafite entraram no reator ao mesmo tempo, deslocando a água. Portanto, antes de desacelerar a reação nuclear, a inserção das barras acelerou a reatividade. O que se seguiu foi uma explosão.
Luzes azuis em Pripyat
Engenheiros soviéticos já sabiam desse comportamento atípico dos reatores RBMK desde 1983, quando um pico de energia foi registrado em condições semelhantes em outra usina, a de Ignalina, com o mesmo modelo de reator.
“Há um equívoco comum de se achar que Chernobyl foi apenas erro humano. Na realidade, foi uma combinação de falhas de projeto — como coeficiente de reatividade positivo e barras de controle com ponta de grafite — e decisões operacionais de alto risco, incluindo um teste mal planejado e operação em regime instável”, resume o professor Renato Cotta.
“Outro ponto importante: não foi uma explosão nuclear como uma bomba, mas sim uma explosão de vapor, seguida possivelmente por uma explosão de hidrogênio, e depois um incêndio prolongado do grafite.”
A primeira explosão foi causada pela rápida vaporização da água que estava no reator. Quanto à segunda explosão, ocorrida de dois a três segundos depois, não há consenso entre os cientistas, mas muitos teorizam, como aponta Cotta, que ela foi resultado da combustão de hidrogênio.
Fato é que o teto da usina, que carecia de proteção extra, voou pelos ares. Testemunhas ao redor da usina e na cidade Pripyat, construída para abrigar os funcionários de Chernobyl, dizem ter visto uma luz azulada no céu, enquanto, sem que eles soubessem, um incêndio no que sobrou do reator lançava radiação continuamente.
Imagem aérea do reator 4 da Usina Nuclear de Chernobyl, em 1986, meses após o acidente
USFCRFC/Agência Internacional de Energia Atômica
O grafite, que antes servia como moderador, passou a servir de combustível para uma fornalha que sugava ar para dentro da usina e jogava uma nuvem de compostos radioativos para fora.
Não fosse o incêndio, que demorou dias para ser extinto, ao custo da vida de dezenas de bombeiros, a radiação teria se concentrado perto do local do acidente, e não se espalhado por boa parte do continente europeu.
Foi essa nuvem que “delatou” a tragédia para o mundo, mantida a princípio em segredo pelas autoridades soviéticas.
O número de vítimas é incerto. Na época, Moscou admitiu duas mortes em decorrência da explosão, 28 por síndrome de radiação aguda e outros 15 casos de câncer terminal de tireoide. A ONU estima em até 4.000 o número de mortes precoces causadas pelo desastre.
A zona de exclusão do desastre
As autoridades esperaram até o dia 27 de abril para evacuar os 48 mil habitantes da localidade de Pripyat, situada a apenas 3 km da usina. Nenhum morador foi informado de que jamais retornaria. Até hoje, a cidade faz parte da zona de exclusão do desastre
Depois que as autoridades reconheceram o acidente, 116 mil pessoas precisaram deixar seus lares situados na zona de exclusão, para a qual até hoje em dia seguem sem poder voltar. Nos anos seguintes, outras 230 mil pessoas tiveram o mesmo destino.
No entanto, cerca de 5 milhões de ucranianos, russos e bielorrussos vivem em zonas onde a quantidade de radiação segue alta.
No total, 600 mil pessoas, principalmente militares, policiais, bombeiros e funcionários, trabalharam como "liquidadores" para conter o incêndio nuclear e criar uma barreira de concreto para isolar o reator – o famoso “Sarcófago”, completado em dezembro de 1986. Atualmente, uma estrutura maior foi colocada sobre o reator 4.
Zaporizhzhia e Fukushima
A usina nuclear de Zaporizhzhia entrou em operação em 1985. Como já foi dito, ela possui reatores VVER, sem as mesmas falhas do RBMK que amplificaram a tragédia de Chernobyl.
“Em Zaporizhzhia, um acidente grave seria mais semelhante ao acidente de Fukushima. O combustível pode fundir, mas o edifício de contenção tende a limitar significativamente a liberação de material radioativo”, afirma o professor Renato Cotta.
A AIEA classifica o acidente de Fukushima como de grau 7, juntamente com o de Chernobyl. O desastre ocorreu em 2011, quando um terremoto seguido de um tsunami danificou o sistema elétrico.
Como o tsunami danificou os geradores a diesel da usina, não havia energia para bombear água para o reator, o que fez o calor residual do reator se acumular até o núcleo se fundir e causar a explosão do hidrogênio. O incidente foi grave, mas mais contido.
Onde fica a usina de Zaporizhzhia
Editoria de Arte/g1
Guerra do Irã
Assim como em Zaporizhzhia, a AIEA teme que os conflitos no Irã possam colocar em risco as instalações nucleares do país.
O país também possui dois reatores VVER instalados e em operação, Bushehr I e II.
“Um eventual bombardeio poderia causar liberação localizada de material radioativo, além de contaminação química e radiológica regional”, explica Cotta. “No entanto, não é provável reproduzir um cenário como Chernobyl, também pelas diferenças entre os reatores.”
O professor destaca que, em um contexto de guerra, as redundâncias que contribuem para a segurança da operação das usinas nucleares são reduzidas: “A AIEA tem enfatizado exatamente esse ponto: o risco sistêmico associado à instabilidade operacional prolongada em condições de conflito”.