Deputado preso postou figurinha com a própria imagem após receber foto de dinheiro vivo

  • 06/05/2026
(Foto: Reprodução)
Preso em Campos, deputado Thiago Rangel chega à sede da PF O deputado estadual Thiago Rangel (Avante) preso pela Polícia Federal na 4ª fase da Operação Unha e Carne, respondeu com uma figurinha com a própria imagem após receber, em uma conversa de WhatsApp, fotos de maços de dinheiro em espécie. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Segundo a decisão do ministro Alexandre de Moraes, que autorizou a operação, a reação do parlamentar — com um adesivo com sua caricatura — foi interpretada pela Polícia Federal como um sinal de anuência à movimentação registrada na conversa. As mensagens analisadas pela PF e reproduzidas na decisão fazem parte do conjunto de provas que indicam a existência de uma articulação entre o deputado, aliados e empresários para direcionamento de obras públicas ligadas à Secretaria Estadual de Educação do Rio. Segundo a PF, as mensagens mostram tratativas sobre liberação de obras, escolha de empresas e fluxo de recursos. Deputado preso postou figurinha com a própria imagem após receber foto de dinheiro vivo Reprodução Rangel foi preso nesta terça-feira (5). A investigação também aponta ligação política com o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, citado nas conversas como peça-chave para viabilizar contratos. Diálogo sobre liberação de obras Em uma das conversas destacadas pela Polícia Federal, o deputado Thiago Rangel troca mensagens com seu operador financeiro, Luis Fernando Passos de Souza, sobre a liberação de obras públicas e a necessidade de articulação política para viabilizar contratos. Segundo a decisão do STF, a análise das mensagens mostra que os dois discutem uma lista de obras em escolas estaduais e os próximos passos para destravar sua execução, com menção direta à necessidade de aval de uma figura identificada como “Rodrigo”. O deputado Thiago Rangel e o ex-deputado Rodrigo Bacellar Reprodução Em um dos trechos citados na investigação, Luis Fernando indica que seria preciso aguardar uma definição superior para avançar com os contratos. "Fala ai deputado, como é que está? Tudo bom? E ai, conseguiu alguma definição com o Rodrigo? Ficou tudo acertado? Alguma coisa desandou?", dizia Luis Fernando para Rangel, em áudio. "E aquela situação das obras, lá, vai liberar? Eu estou doido para dar uma calçada em Nédio, mas eu preciso do sinal verde seu", disse Luis. A Polícia Federal interpreta que a referência a “Rodrigo” diz respeito a Rodrigo Bacellar, apontado como alguém com influência sobre a liberação das obras. Já o outro nome citado é Nédio Gabriel de Souza Gonçalves, citado na decisão do STF como um dos empresários ligados ao grupo investigado. Em outro trecho da conversa no mesmo dia 8 de agosto, Luis continua falando sobre os contratos com os aliados do deputado. "A gente procura alinhar os empreiteiros todos que vão fazer as obras para a gente começar a agir. Ta bom? Vão soltar os negócios", informa Luis antes de receber uma ligação de Rangel. Deputado Thiago Rangel Reprodução A decisão destaca que, na sequência dessas conversas, Rangel encaminhou ao operador um documento com relação de possíveis licitações para obras em escolas estaduais, contendo valores, empresas participantes e unidades de ensino envolvidas. Para os investigadores, o documento indica que o grupo já trabalhava com um planejamento prévio das contratações. Outro diálogo relevante, de 17 de setembro de 2024, reforça esse cenário. Nele, segundo a PF, Rangel e Luis Fernando discutem a necessidade de alinhar interesses com empresários e garantir o avanço de obras consideradas estratégicas. Naquele mesmo dia, Luis informa em mensagens: “Contrato assinado... Saque de 550 para sexta...” e “Depois 700 + 750”, seguido de confirmação com um simples “Ok!”. O deputado Thiago Rangel troca mensagens com o seu operador financeiro, segundo a PF. Reprodução Segundo a PF, as mensagens sugerem que algum possível contrato com o ente público possa ter sido formalizado, com o fornecedor se comprometendo em fazer repasses por meio de saques em espécie. Minutos mais tarde, Thiago Rangel responde. "Ta bom. Bota isso com você guardado, entendeu? Se precisar, beleza, se não precisar, deixa rodar”, disse Rangel em áudio. A conversa é interpretada pelos investigadores como parte de um processo contínuo de articulação entre o núcleo político e o núcleo financeiro do grupo. De acordo com a PF, a mensagem reforça a suspeita de "ocultação de recursos ou de possível gestão paralela de valores em espécie, prática comum em esquemas de desvio de verbas públicas". Para a Polícia Federal, o conjunto desses diálogos demonstra que a liberação de obras não ocorreria de forma regular e autônoma dentro da administração pública, mas sim condicionada a acordos políticos e tratativas prévias, envolvendo agentes públicos e operadores externos. Conexão com dinheiro A decisão também aponta indícios de movimentação financeira associada ao esquema suspeito. Um dos nomes citados pelos investigadores é Marcos dos Santos Barcelos Junior, apontado pela investigação como participante do fluxo financeiro. Em mensagens de 20 de setembro de 2024, há envio de imagens de dinheiro em espécie — notas presas por elásticos — em conversa entre Rangel e Luis Fernando. Deputado preso postou figurinha com a própria imagem após receber foto de dinheiro vivo. Reprodução Marcos Barcelos é sócio administrador da empresa Incrementum Construções Prediais e Obras de Urbanização Ltda, segundo a PF. Os investigadores apontam que essa é uma das empresas citadas no documento enviado por Thiago Rangel a Luis Fernando, relacionado a procedimentos licitatórios para obras/reformas em escolas estaduais do Rio de Janeiro. Segundo a PF, os registros reforçam a suspeita de circulação de recursos fora dos canais oficiais. A investigação liga esse fluxo ao suposto esquema de caixa dois eleitoral já apontado em outra frente da apuração. Planejamento operacional Um dos elementos mais relevantes das conversas é o envio de uma lista de obras públicas, em formato de tabela, por Rangel a seu operador. O documento continha: número de processos (SEI) nome das obras municípios escolas valores empresas participantes Segundo a PF, o envio desse material indica planejamento prévio de contratos. “Esses diálogos [...] configuram fortes indícios de que houve articulação voltada à prática de fraudes em contratos com entes públicos, visando favorecer financeiramente o parlamentar Thiago Rangel [...]”, dizia um trecho da decisão. O texto também aponta que a menção a “Rodrigo” reforça a hipótese de participação de Rodrigo Bacellar, com influência sobre a Secretaria de Educação. Nesse contexto, a decisão cita ainda Guilherme Rangel Abreu, conhecido como “Guilherme Bocão”, que teria ligação com empresas que receberam contratos da área de educação e também relação com o grupo político. De acordo com a PF, essas empresas estariam ligadas a pessoas próximas ao deputado, atuando como possíveis intermediários ou “laranjas”. Outro nome citado é Rui Carvalho Bulhões Junior, identificado como chefe de gabinete na Alerj, que aparece em trocas de mensagens com envio de documentos relacionados a obras. Influência na estrutura pública A decisão do STF também traz elementos que, segundo a Polícia Federal, indicam ingerência direta de Thiago Rangel na estrutura administrativa da educação estadual, especialmente na Diretoria Regional Noroeste — área considerada de influência política do parlamentar. Um dos pontos centrais é a atuação de Júcia Gomes de Souza Figueiredo, citada como ocupante do cargo de diretora regional de educação. De acordo com a investigação, a nomeação dela teria ocorrido por indicação direta de Rangel. Em mensagem enviada pelo deputado à servidora, reproduzida na decisão, ele afirma: “Júcia, continua aí do jeito que você tem que estar, tá ok? Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber. Já avisei ao Marcelo agora aqui, eu não tenho que dar satisfação a ninguém. Porque o deputado sou eu, a indicação é minha e quem manda sou eu.” Para a Polícia Federal, o conteúdo da mensagem não apenas evidencia a relação política entre os dois, como sugere um nível de subordinação funcional e alinhamento direto com o parlamentar, fora da estrutura formal da administração pública. LEIA TAMBÉM: PF aponta caixa 2 de R$ 2,9 milhões ligado a esquema na Educação do RJ Deputado estadual preso pela PF aumentou patrimônio em 700% em 2 anos Filha de Thiago Rangel foi exonerada de cargo no Governo do RJ um dia antes de operação Thiago Rangel ofereceu cargo 'na educação' a 'Junior do Beco', traficante com histórico de homicídios, diz PF A decisão que determinou a prisão de Rangel reforça essa interpretação. “Tal declaração evidencia que a nomeação de Júcia para o referido cargo decorreu de indicação direta do parlamentar, o qual reafirma exercer controle hierárquico e poder decisório sobre suas ações. Assim, resta demonstrada a ingerência do deputado nas tratativas e na condução administrativa dos envolvidos.” Segundo a investigação, a Diretoria Regional de Educação tem papel estratégico na execução de contratos e na interlocução com escolas, o que, na avaliação da PF, permitiria ao grupo influenciar: a definição de demandas por obras; a tramitação de processos administrativos; e a execução de contratos nas unidades escolares. Para a PF, esse conjunto de elementos reforça a hipótese de que o esquema não se limitava à atuação externa com empresas e operadores financeiros, mas também envolvia controle interno de estruturas do Estado, consideradas essenciais para viabilizar os contratos sob suspeita. O que dizem os citados A defesa de Thiago Rangel negou que o parlamentar tenha cometido qualquer crime e afirmou que irá prestar todos os esclarecimentos ao longo do processo. A vereadora Thamires Rangel, filha do deputado, disse que não houve caixa dois em sua campanha e que as contas foram aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral. A Secretaria Estadual de Educação informou que está revisando todos os contratos de obras em escolas. Já a Alerj declarou que está à disposição para colaborar com o esclarecimento dos fatos. A reportagem procurou as defesas de Rui Bulhões e Rodrigo Bacellar, mas não houve resposta até a última atualização. Os demais citados não foram localizados.

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/05/06/deputado-preso-postou-figurinha-com-a-propria-imagem-apos-receber-foto-de-dinheiro-vivo.ghtml


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