Foto de anta albina registrada há mais de uma década abriu caminho para pesquisa no interior de SP: 'Vira um símbolo', diz fotógrafo
23/02/2026
(Foto: Reprodução) 'Garsparzinho' é uma das raras antas brancas flagradas na reserva Legado das Águas
Reprodução/Luciano Candisani
A aparição de animais albinos costuma despertar curiosidade, mas, em Tapiraí, no interior de São Paulo, cidade cercada pela Mata Atlântica, a presença de antas totalmente brancas ultrapassou o inusitado. Ao longo dos anos, esses animais passaram a integrar o imaginário popular e se tornaram objeto de estudos científicos.
A própria origem do nome da cidade revela a forte ligação com a espécie, cujo nome científico é Tapirus terrestris. Segundo a prefeitura, Tapiraí é uma expressão indígena que significa “lugar de anta”, em referência à grande presença desses animais na região.
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O g1 conversou com o biólogo e fotógrafo Luciano Candisani, que em 2014 foi responsável pela primeira foto de uma anta albina de vida livre. O registro ocorreu no bairro da Anta, no Legado das Águas, uma reserva natural de Tapiraí.
"Na época, eu fui contratado pela reserva, que se tornaria o Legado das Águas depois, para fazer uma documentação fotográfica do local, da biodiversidade toda. E quando eu cheguei na reserva para fazer esse trabalho, comecei a ouvir relatos das pessoas locais sobre uma anta supostamente branca que circulava principalmente à noite ali na área. Muitos relatos. Muita gente via", relembra.
Intrigado com os relatos, Luciano montou uma armadilha fotográfica com câmeras profissionais na mata. A intenção não era apenas confirmar a presença da espécie, mas conseguir imagens de alta qualidade que pudessem contribuir para estudos científicos.
"Depois dessa fotografia se iniciou uma pesquisa toda em cima dessa ocorrência para tentar entender tentar explicar entender a ocorrência do albinismo local", relata.
Para monitorar os dois animais, fotógrafo montou armadilhas fotográficas que disparavam quando detectavam movimento
Legado das Águas/Divulgação
Em paralelo às imagens feitas pelas armadilhas fotográficas de Candisani, que eram incorporadas ao acervo da pesquisa científica, moradores da região continuavam vendo e registrando antas albinas. Um desses registros foi feito dois anos após a primeira fotografia capturada pelas câmeras do fotógrafo, dessa vez, por um funcionário da reserva ambiental. A anta branca foi flagrada nadando no Rio Juquiá, em Tapiraí, em 2016.
Entre os desdobramentos e descobertas obtidas pela pesquisa, uma dos que mais chamou atenção de Luciano foi o resgate de um filhote de anta albino, que ocorreu em 2020, em Piedade, cidade vizinha de Tapiraí.
"Era um filhote abandonado, sem a mãe, que foi levado para o Zoológico de Sorocaba na época. Então existe, quer dizer, existe uma prevalência do albinismo em antas nessa região e aí as pesquisas buscava, entender o que poderia estar por trás disso", comenta.
Filhote permanece sob cuidados em Sorocaba
Luciano Candisani/Arquivo pessoal
O animal citado por Luciano foi recebido pelo Zoológico Municipal "Quinzinho de Barros", em Sorocaba, em 23 de novembro de 2020, após ser encontrado em uma propriedade. O zoológicou chegou a construir um recinto para alocar o filhote e tinha a intenção de fazer pesquisas para compreender mais sobre o albinismo em antas.
Segundo a Prefeitura de Sorocaba, a anta morreu em março de 2024, em decorrência de uma infecção respiratória.
Gasparzinho e Canjica
O estudo científico com as antas albinas foi comandado por Mariana Landis, pesquisadora do Instituto Manacá, parceira do Legado das Águas. Ela explica que o albinismo por si só já é uma condição rara, mas acontecer duas vezes no mesmo local, é daquelas probabilidades de uma em um milhão.
"Dois indivíduos albinos numa mesma região, a gente considerou como se fosse dois raios caindo no mesmo lugar, sabe? Principalmente porque trata-se de uma característica genética recessiva, que normalmente é mais rara em um animal silvestre. Então, em 2018, nós começamos uma busca por material biológico, por amostras desses indivíduos para análise. Instalamos armadilhas de pelo na reserva, que eram arames por onde as antas passavam e deixavam os pelinhos da crina com bulbo, que continha a informação genética necessária pra gente mandar pro laboratório e fazer as análises do grau de parentesco."
Canjica, macho albino flagrado no Legado das Águas por uma das armadilhas fotográficas instaladas por Luciano
Luciano Candisani
Com os resultados, foi possível determinar que se tratava realmente de duas antas albinas, sendo dois machos adultos, que receberam os nomes de Gasparzinho e Canjica.
Além da dupla de machos, Mariana também relembra o resgate do filhote de anta albino, citado acima por Luciano. Além dos três animais que foram devidamente registrados, a equipe de pesquisa recebeu relatos de moradores que apontavam para a possível presença de outras antas albinas na região de Tapiraí.
"Um tempo depois, eu recebi vídeos de funcionários do Legado das Águas, que também moravam na região, e que mostravam uma anta albina adulta. A gente não conseguiu ver o sexo. Ela foi flagrada nas proximidades de uma pousada, também em Tapiraí, mas muito distante da região onde a gente tinha o Canjica e o gasparzinho, que já eram monitorados pela reserva. Então, a gente está falando da quarta anta albina na mesma região de mata", relata Mariana.
A cerca de 160 quilômetros de Tapiraí, mas ainda no bioma da Mata Atlântica, outra anta albina foi avistada. A aparição ocorreu em 2023, quando o animal deu um "passeio" próximo à varanda de uma chácara em São Lourenço da Serra.
"A gente está falando do quinto indivíduo de anta albina, todos na mesma região: Piedade, São Lourenço da Serra e Tapiraí. Na verdade, é esse restante de floresta que tem pela região, que margeia o rio Juquiá, foi onde os indivíduos apareceram."
Anta albina foi registrada em São Lourenço da Serra (SP), em 2023
Caio Brito
Os relatos continuaram surgindo. Ao longo da pesquisa, Mariana recebeu e catalogou registros da presença de ao menos seis antas albinas no interior de São Paulo, em áreas próximas a Tapiraí. Segundo a pesquisadora, embora os animais não tenham sido capturados para análises diretas, a localização geográfica apontada nos relatos indica que se tratam de indivíduos distintos.
“Depois surgiu o relato de mais um indivíduo no Parque Estadual do Jurupará, que seria o sexto. São animais que temos certeza de que não são os mesmos justamente pela distância entre os registros. A gente tem as coordenadas, tudo, e são distantes o suficiente para a gente crer que o mesmo indivíduo não poderia estar nos dois lugares", explica.
Por que tantas na mesma região?
Segundo Mariana, alguns fatores ajudam a explicar a ocorrência de tantos animais albinos da mesma espécie em uma única região. O monitoramento dos dois primeiros indivíduos registrados pelas lentes de Luciano, a dupla Gasparzinho e Canjica, foi fundamental para a compreensão de um desses fatores.
"Os dois viviam muito bem, assim como uma anta de coloração normal, não havia nenhuma alguma observação que nos induzisse a pensar que eles não estavam bem. Inclusive um dos dois indivíduos, tinha muitos registros dele com uma fêmea. E dava para ver bem a diferença na coloração dos dois", detalha.
Gasparzinho na companhia de uma fêmea de coloração comum. Registro foi feito por armadilha fotográfica instalada por Luciano na reserva de Tapiraí (SP)
Luciano Candisani
"Os indivíduos albinos têm maior risco de serem predados, têm uma maior fragilidade na pele, não podem ficar muito exposto ao sol por riscos de doenças de pele. E a gente está falando de Mata Atlântica, onde o maior predador das antas é a onça-pintada. Mas a espécie está criticamente ameaçada no bioma, praticamente nem existe indivíduos nessa região que a gente observou esses albinos e, além disso, ele não está exposto ao sol, porque é uma floresta tropical muito densa, então a incidência ao sol desses animais é muito baixa. Isso favorece, de certa forma, que esses bichos sobrevivam bem neste local", aponta a pesquisadora.
A presença do albinismo nas antas da região do Legado das Águas pode ter surgido inicialmente por puro acaso no ambiente natural. Mariana pondera, no entanto, que não é comum encontrar na natureza muitos indivíduos portadores do gene recessivo responsável pelo albinismo.
“O albinismo é uma característica genética recessiva. Isso significa que, para um indivíduo nascer albino, tanto o pai quanto a mãe precisam carregar esse gene. Quando passamos a encontrar muitos indivíduos recessivos dentro de uma mesma população, isso pode indicar a ocorrência de cruzamentos entre animais aparentados”, explica.
Anta albina registrada por pesquisadores no Legado das Águas, na região de Tapiraí (SP)
Luciano Candisani
Segundo a pesquisadora, esse cenário acende um alerta sobre a saúde genética da população local: “Apesar de a região abrigar muitas antas, o que nos preocupa é a possibilidade de haver indivíduos muito semelhantes geneticamente, favorecendo a endogamia, que é o cruzamento entre parentes próximos. Isso aumenta a chance de surgirem características recessivas, que nem sempre são desejáveis.”
Mariana destaca que, em populações geneticamente saudáveis, há uma grande variabilidade de genes, o que faz com que essas características apareçam de forma muito mais rara e não representem um risco para a conservação da espécie.
A pesquisa genética foi concluída em 2024 e os primeiros resultados, obtidos em parceria com uma equipe da Universidade Federal de São Carlos, liderada pelo pesquisador Bruno Saranholi, responsável pelas análises genéticas, indicaram um alto grau de proximidade genética entre os indivíduos.
"Isso nos dá realmente uma comprovação dessa suspeita de que esteja tendo muita endogamia. A variabilidade genética das antas na região não é alta é o suficiente para que esse gene recessivo desapareça ou seja muito insignificante na população", afirma Mariana.
Apesar do estudo ter terminado, o Legado das Águas permanece monitoramento a fauna na área da Reserva de modo geral.
"Continuamos coletando informações de antas que acabam sendo caçadas, atropeladas. A gente tem que fazer resgate, coleta de material biológico delas, para continuar essa investigação. É um trabalho de longo prazo que nos permite entender a real situação das antas na região, inclusive dos indivíduos não albinos. Apesar de serem indivíduos lindíssimos, que chamam muito a atenção, afinal é um animal de quase 300 quilos, branco, andando pela floresta, mas existe sim a preocupação dessa característica estar muito expressa na Mata Atlântica da região", conclui a pesquisadora.
'Vira um símbolo
Para Luciano, responsável pelo registro que deu início à pesquisa científica, a presença da anta albina é quase um mito na região de Tapiraí. Ele avalia, porém, que os registros fotográficos ajudaram a despertar na população um senso de responsabilidade pela preservação não apenas das antas brancas, mas de toda a fauna e flora locais.
"Sempre usei a fotografia como ferramenta de conservação, de ciência, de documentação e d educação. É muito legal quando acontece isso de ter, o que a gente chama de uma espécie bandeira, algo tão raro que vira um símbolo, isso é muito bom porque acaba atraindo a atenção para a proteção de uma área. Essas áreas ganham um esforço de conservação por causa desses animais, que vai proteger não só aquela espécie símbolo, mas todas as outras que precisam ser protegidas", analisa.
Luciano Candisani, biólogo e fotógrafo, responsável pelo primeiro registro de anta albina em vida livre no Brasil
Arquivo Pessoal
Aparição recente
Anta com coloração rara é flagrada em área rural na região de Itapetininga
No começo de fevereiro, uma anta com características de albinismo foi avistada em uma propriedade rural localizada entre os municípios de Pilar do Sul e Tapiraí (SP).
No vídeo, com pouco mais de um minuto de duração, o animal aparece nadando tranquilamente em um lago dentro da fazenda. Com apenas a cabeça fora da água, a anta parece relaxada, aproveitando o momento. Em seguida, mergulha e permanece submersa por alguns instantes. Assista ao vídeo acima.
O biólogo Thiago Godoi, que é especialista em manejo e preservação de fauna silvestre e exótica, explicou ao g1 que, apenas pelas imagens, não é possível confirmar se o animal é albino, já que seria necessário observar a coloração dos olhos para um diagnóstico preciso. Ainda assim, segundo o especialista, a anta apresenta uma condição genética rara, que a diferencia das demais da espécie.
“Temos duas possibilidades: o albinismo ou o leucismo. Para ter certeza, a gente teria que ver os olhos”, aponta.
Anta branca chama atenção ao ser flagrada nadando em fazenda no interior de SP
Arquivo Pessoal
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