Início de 2026 registrou o maior nº de mortes de mulheres cometidas pela polícia de SP desde o início da série histórica

  • 10/04/2026
(Foto: Reprodução)
Mulher morre baleada pela PM. Reprodução Quase todos os mortos pela polícia de São Paulo são homens. Em anos como 2013, 2014 e 2021, só homens, nenhuma mulher morta. Já neste ano, em fevereiro, três mulheres foram mortas pela polícia. Foi o começo de ano com mais mortes de mulheres desde o início da série histórica da Secretaria da Segurança Pública, em 2013. Até então, nenhum mês havia registrado mais de duas mortes de mulheres (veja abaixo). As mulheres morreram em Guaiçara e Limeira, interior de São Paulo, e na Casa Verde, Zona Norte da capital paulista. O número ainda não inclui Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, morta por uma policial militar em Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, na madrugada de 3 de abril. A ação policial que culminou com a morte de Thawanna foi marcada por abusos e violência desde o primeiro contato e se configurou como uma “briga” entre agentes e civis — e não uma abordagem, além de desrespeitar protocolos da Polícia Militar, segundo especialistas ouvidos pelo g1 (leia mais abaixo). As três mortes de mulheres registradas em fevereiro representam cerca de 1,6% do total de 188 pessoas mortas pelas polícias de São Paulo até 9 de abril deste ano. "Esse crescimento das mortes de mulheres nas intervenções da polícia revela mais um descontrole em relação ao uso da força por parte da Polícia Militar, do que efetivamente uma mudança na dinâmica criminal", diz Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Samira também lembra que não é comum policiais mulheres matarem, como no caso de Thawanna. A soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, estagiária da Polícia Militar, foi quem disparou contra a pedestre. "Agora a gente está vivendo um descontrole em relação ao uso da força por parte da Polícia Militar do estado de São Paulo. E isso vem acontecendo desde 2023. A gente teve um recorde em 2024 e 2025", completou. Mesmo com apenas dois meses de 2026 contabilizados, os quatro anos mais recentes da gestão Tarcísio de Freitas concentram cerca de 40% das mortes de mulheres provocadas por policiais desde o início da série histórica, que soma 43 vítimas. Foram 17 casos entre 2023 e 2026. Só em 2025, houve 6 mortes — ano em que as polícias mataram 877 pessoas, o segundo maior número já registrado, atrás apenas de 2017. O número de mulheres mortas pode ser maior, já que em 58 ocorrências o gênero da vítima não é identificado. Mulheres mortas pela polícia de SP Arte/g1 Em 2025, o governo mudou o modelo de câmeras corporais, que deixaram de gravar ininterruptamente. Em 2024, o número de mortos por policiais militares cresceu 65% em relação a 2023, em um período marcado por operações policiais de grande impacto, especialmente na Baixada Santista. Foi o maior crescimento de mortes cometidas por policiais do país em 2024. Em 2022, durante a ampliação do programa de câmeras corporais com gravação ininterrupta, o estado registrou o menor número de mortes cometidas por PMs em serviço da série histórica, segundo dados oficiais. Naquele ano, uma mulher foi morta pela polícia em São Paulo. Exclusivo: imagens das câmeras corporais de PM mostram ação que acabou com morte de mulher O que diz a SSP "A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informa que todas as ocorrências de morte decorrente de intervenção policial (MDIP) são rigorosamente investigadas, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Judiciário. As circunstâncias de cada caso são analisadas de forma individualizada, com base em elementos técnicos e periciais. As forças de segurança realizam ações permanentes voltadas ao aperfeiçoamento do trabalho policial e à redução da letalidade, com revisão de protocolos operacionais, capacitação dos agentes e uso de tecnologia. Os investimentos em equipamentos de menor potencial ofensivo, como espargidores, bastões retráteis e armas de incapacitação neuromuscular, foram ampliados na atual gestão, com a aplicação de mais de R$ 27 milhões." Como foi a morte de Thawanna Thawanna e o marido, Luciano Gonçalvez dos Santos, estavam caminhando de mãos dadas, quando uma viatura da PM passou pela Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes. A confusão começou quando Luciano esbarrou no retrovisor do carro. O policial Weden Silva Soares deu ré e iniciou uma discussão com o casal, com xingamentos. Em seguida, a soldado Yasmin Cursino Ferreira, que estava no banco do passageiro, desceu da viatura e também passou a discutir com Thawanna. Câmera corporal de PM mostra minuto a minuto abordagem que terminou na morte de mulher em SP A situação escalou até que Yasmin atirou contra a mulher. Após cerca de 30 minutos, Thawanna foi socorrida ao Hospital Tiradentes, mas não resistiu aos ferimentos. A policial afirma que reagiu após ser atingida com um tapa no rosto (leia mais abaixo). A ação foi registrada apenas pela câmera corporal de Weden, já que Yasmin não usava o equipamento. Questionada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) não explicou o motivo. 🔎 Quando a PM pode abordar alguém? A Polícia Militar só pode abordar uma pessoa quando há fundada suspeita de envolvimento em crime, baseada em elementos objetivos, como comportamento ou informações prévias. A ação deve seguir protocolos como identificação do agente, verbalização e uso proporcional da força, sendo o disparo de arma de fogo permitido apenas em situações de risco iminente à vida. O Ministério Público de São Paulo instaurou um procedimento para investigar a morte de Thawanna. Os dois policiais envolvidos na ocorrência foram afastados da rua (leia mais abaixo). Sucessão de abusos Para Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e pesquisador em segurança pública, o episódio é um “absurdo” e não segue nenhum protocolo da corporação. Segundo ele, houve uma sequência de abusos que terminanam na morte de Thawanna, que, na avaliação dele, deveria ser investigada como homicídio qualificado por motivo fútil. "É abuso desde o começo. O linguajar que [o policial] usa com a pessoa, o vídeo mostra. Quem começou agredindo foram os policiais militares. Assim que ele dá ré, já começa a discutir com o casal", afirma. Os abusos continuaram mesmo após o disparo, segundo o pesquisador. Pelas imagens da câmera corporal, os agentes impediram que Luciano se aproximasse da esposa enquanto ela agonizava no chão. O tenente-coronel reforça que uma pessoa só pode ser abordada por um agente quando há fundada suspeita. Contudo, segundo ele, essas regras não são seguidas na prática, em especial nas regiões periféricas, que recebem tratamento diferente das áreas nobres da cidade. Em muitas situações, como Thawanna que estava apenas andando de mãos dadas com o marido, a abordagem é motivada apenas pela cor ou pelo local onde a pessoa vive. “As normas da polícia não valem nada, absolutamente nada na vida real. [...] Nós caímos no padrão de atuação em territórios ditos conflagrados, onde há inimigos. Periferia, pretos ou pardos e pobres. Encaixou em um desses quesitos, ou nos três, é inimigo e merece sofrer toda e qualquer ação do Estado”, afirma. Com 30 anos de experiência na área, o pesquisador diz nunca ter visto algo semelhante e compara o caso a episódios históricos de violência policial em São Paulo, o Massacre do Carandiru e os Crimes de Maio de 2026. “Trabalhei no serviço ativo por 30 anos, tenho pesquisado violências de uma maneira mais consistente, desde 2009, nunca vi isso. Essa ocorrência para mim, do jeito como aconteceu, é pior do que Carandiru, do que Maio de 2006. Nessa ocorrência, o sistema mostrou exatamente como ele trabalha". Yasmin entrega a outro PM arma que usou para atirar em mulher Reprodução Falhas na ação policial Na avaliação de Cláudio Aparecido da Silva, ex-ouvidor das polícias de São Paulo, o que aconteceu também não pode ser chamado de abordagem. Na avaliação dele, foi uma desinteligência, ou seja, uma briga entre policiais e o casal. Ele aponta uma série de falhas na atuação dos agentes, que começam ainda na forma como o patrulhamento foi realizado. Uma delas é o fato de a viatura estar com os sinalizadores desligados, mesmo sendo uma polícia ostensiva. Segundo o ex-ouvidor, isso pode ter contribuído para o início da ocorrência, já que o casal não teria sido alertado da aproximação do carro. Ele também questiona a forma como a viatura foi conduzida, já que o patrulhamento deve ser feito em velocidade que permita observar o entorno da rua para evitar situações de risco. Para o especialista, o uso de força letal também não se justifica. Ele lembra que o disparo de arma de fogo só deve ocorrer em situações de risco iminente à vida, o que não aconteceu no caso da Thawanna. Por fim, Cláudio Silva aponta falha no uso das câmeras corporais, já que a soldado Yasmin não portava o equipamento. “Não justifica. Além de uma falha dela de não estar com equipamento, tem uma falha do comando dela. O comando dela deveria ter percebido a falta do equipamento. Se o batalhão dela tá usando câmera, o que a faz não usar? Porque onde a câmera chegou, chegou para todo batalhão e para todo efetivo daquele batalhão", explica. O que mostram as imagens Vídeo de câmera corporal mostra que mulher morta por PM na Zona Leste de SP não encostou em retrovisor nem iniciou briga Reprodução Nas gravações, é possível o interior da viatura onde estavam os soldados Weden, que dirigia o carro e usava a câmera corporal, e Yasmin, que não portava o equipamento por ser recém-formada na corporação e estar no patrulhamento havia cerca de três meses. Às 2h58, eles entraram na Rua Edimundo Audran. Pouco depois, o retrovisor da viatura bateu no braço do marido de Thawanna. O soldado Weden parou o veículo, deu ré e disse: "A rua é lugar para você estar andando, ca*****?". Em seguida, Luciano falou: "Ô, Steve", gíria usada por policiais para se referir a um colega de farda. O policial rebateu: "Steve, o ca*****!". Thawanna, então, disse: "Não, não, com todo o respeito, vocês que bateram em nós". A policial Yasmin, que estava no banco do passageiro, desceu da viatura. É possível ouvir Thawanna dizendo à militar para não apontar o dedo para ela. Em seguida, foi efetuado o disparo. Ainda nas imagens, é possível ver que outra viatura chegou ao local às 3h, e o soldado Weden relatou o que aconteceu. Em seguida, ele tentou fazer os primeiros-socorros até o resgate, que chegou às 3h30. A dupla, então, entrou em outra viatura e deixou o local. Mortes cometidas por PMs em serviço aumentam em SP em 2025

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/04/10/inicio-de-2026-registrou-o-maior-no-de-mortes-de-mulheres-cometidas-pela-policia-de-sp-desde-o-inicio-da-serie-historica.ghtml


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