Legado de monsenhor que atuou no interior de SP mobiliza fiéis e processo de canonização avança no Vaticano
11/04/2026
(Foto: Reprodução) Canonização do Monsenhor Nakamura avança e chega no Vaticano
Quase um século após sua morte, a história e o legado do Monsenhor Domingos Chohachi Nakamura, religioso que viveu no oeste paulista, mobilizam fiéis e a própria Igreja Católica. Isso porque tramita no Vaticano o processo que pode levá-lo à santidade.
Durante a investigação, serão avaliadas as chamadas virtudes heroicas, que podem levá-lo ao título de Venerável, etapa do processo de canonização que será explicada ao decorrer da matéria.
📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp
O processo de canonização de Monsenhor Nakamura, conhecido como o "Apóstolo dos Imigrantes Japoneses", avançou mais uma etapa importante e chegou ao Vaticano na quarta-feira (8).
O material foi levado a Roma pelo vice-postulador da causa, padre Leandro César Martins, encerrando uma etapa que envolveu anos de investigação histórica, conduzida pela Diocese de Presidente Prudente (SP). O padre também encontrou o Papa Leão XIV e relatou o objetivo de sua viagem.
A entrega marca o encerramento da fase diocesana supletória, que reuniu cerca de dois anos de pesquisa histórica e investigação sobre a vida do religioso.
O processo entra agora na chamada fase romana, quando a documentação passa por análise técnica e jurídica. A partir disso, será elaborado o Positio, documento que reúne a síntese da vida, das virtudes e da fama de santidade do religioso.
Em entrevista ao g1, o padre Jurandir Severino de Lima, que atua como notário do processo, relatou que essa etapa é fundamental para validar todo o trabalho já realizado: "Eles vão analisar isso e possivelmente chegarão a um veredito [...] Hoje tudo depende de Roma".
Documentação histórica sobre Monsenhor Nakamura será analisada pelo postulador da Causa para encaminhamento da fase romana do processo de canonização
Padre Leandro César Martins/Imagem cedidas
LEIA TAMBÉM:
Repositor que viralizou com arte em prateleiras de supermercado usa talento para engatar romance no interior de SP
Diagnóstico de TEA e preconceito: terapeuta e jornalista contam desafios de viver com autismo no interior de SP
Quem foi Monsenhor Nakamura?
Monsenhor Nakamura é conhecido como 'Apóstolo dos Imigrantes Japoneses'
Centro de Pesquisas Monsenhor Nakamura/Arquivo
Conhecido como o "Apóstolo dos Imigrantes Japoneses", Monsenhor Nakamura nasceu em 1865, em Nagasaki, no Japão, e chegou ao Brasil em 1923, aos 58 anos, com a missão de acompanhar os imigrantes japoneses.
De acordo com o padre Jurandir, ele foi o único sacerdote de sua diocese a se voluntariar para a missão, demonstrando desprendimento e dedicação.
"Ele [Monsenhor Nakamura], mesmo com idade de 58 anos, levantou a mão [para se voluntariar], demonstrando um desapego muito grande da sua terra, para vir a um país que não conhecia, um país com poucas estradas, poucos meios de locomoção, era um lugar para desbravar", afirmou.
Inicialmente vinculado à Diocese de Botucatu (SP), que na época era responsável por uma extensa região do interior paulista, o monsenhor percorreu diferentes localidades até se estabelecer em Álvares Machado (SP), onde viveu por aproximadamente 12 anos, entre 1928 e 1940.
Na região, ficou conhecido pela vida simples e pela dedicação à evangelização. Morava em uma casa de madeira no bairro rural Guaiçara e viajava longas distâncias para atender comunidades, utilizando diferentes meios de locomoção, como trem, cavalo e até rotas fluviais.
"Ele andava nesta região sempre com duas malas e uma batina preta surrada. Era uma mala para as suas vestes e outra mala para os utensílios da Santa Missa", disse o padre.
Padre Jurandir Severino de Lima conversou com o g1 sobre quem foi Monsenhor Nakamura e o processo de canonização dele
Enzo Mingroni/g1
Sem estrutura de igreja em muitos locais, ele utilizava soluções improvisadas para reunir fiéis. Um dos exemplos mais marcantes era o uso de um trilho de ferrovia como sino, batendo no metal para chamar a população para as celebrações.
Além de atender católicos, Monsenhor Nakamura também se aproximava de pessoas de outras religiões, especialmente budistas, mantendo diálogo e respeito.
De acordo com os relatos reunidos no processo, essa convivência contribuiu para a aproximação de diferentes comunidades e, em alguns casos, para a conversão ao cristianismo.
"Ele dá toda a demonstração de alguém que é missionário, alguém desapegado, alguém muito simples, e que tinha um amor muito grande pelo Evangelho e pela Igreja", relatou o padre Jurandir.
Monsenhor Nakamura morreu em 14 de março de 1940, em Álvares Machado. O respeito e a admiração da comunidade foram evidenciados até mesmo no momento do sepultamento.
"A comunidade de Álvares Machado fez questão de sepultá-lo no cemitério municipal, mesmo tendo ao lado um cemitério japonês. O único cemitério japonês da América Latina e ele não foi sepultado ali, mas, sim, no cemitério municipal, tamanho o amor que o povo tinha por ele e respeito que ele obtinha das autoridades", explicou.
Atualmente, sua história segue viva na região, com espaços de memória, pesquisas históricas e crescente devoção popular, fatores que sustentam o avanço do processo de canonização.
Monsenhor Nakamura e comunidade diante da capela do bairro Guaiçara em Álvares Machado
Centro de Pesquisas Monsenhor Nakamura/Arquivo
Processo de canonização
O processo de canonização na Igreja Católica é longo, rigoroso e dividido em etapas que avaliam tanto a vida quanto possíveis milagres atribuídos ao candidato.
No caso de Monsenhor Nakamura, a investigação começou a partir de um trabalho realizado pela Pastoral Nipo-Brasileira, que reuniu informações sobre sua trajetória e encaminhou o material ao Vaticano. Após uma análise inicial, a Santa Sé autorizou a continuidade do processo, que passou a ser conduzido oficialmente pela Diocese de Presidente Prudente.
A partir disso, foi instaurado um tribunal eclesiástico responsável por aprofundar a investigação. Segundo o padre Jurandir, o grupo é composto por diferentes integrantes com funções específicas:
Postulador: responsável por organizar todo o processo;
Juiz delegado: responsável pelas questões formais do processo;
Promotor de Justiça: encarregado de colher os depoimentos;
Notário: responsável por registrar e organizar toda a documentação conforme as normas da Santa Sé.
Além disso, uma comissão independente formada por historiadores, jornalistas e pesquisadores também foi criada para analisar a vida do monsenhor com base em critérios técnicos, garantindo a veracidade das informações.
Comissão Histórica que atuou durante dois anos coletando dados e documentação para fase supletória do processo
Evandro Brandi Marques/Divulgação
Após anos de coleta de documentos, testemunhos e análises, o material é enviado ao Vaticano, que pode solicitar complementações, antes de dar continuidade à avaliação.
Atualmente, Monsenhor Nakamura é considerado Servo de Deus, título inicial concedido a candidatos à santidade. O próximo passo é o reconhecimento das chamadas virtudes heroicas, o que pode levá-lo ao título de Venerável.
"Todo o processo de beatificação do Monsenhor Nakamura é montado em cima das virtudes heroicas de um cristão. Ele se enquadra dentro dessas virtudes, que é o testemunho da graça de Deus. Deus agiu no Monsenhor Nakamura, ele aceitou a graça de Deus e se tornou um modelo para os jovens, para a comunidade, de alguém que é capaz de colocar Cristo em primeiro lugar", afirmou o padre.
Caso ele seja declarado Venerável, a Igreja passa a aguardar a comprovação de um milagre atribuído à intercessão do candidato. Esse milagre é necessário para a beatificação, quando ele recebe o título de Beato. Para a canonização, ou seja, a declaração como Santo, é exigido um segundo milagre.
Os critérios para reconhecer um milagre são considerados extremamente rigorosos pela Igreja.
"Se o milagre for eficaz, rápido e inexplicável, essa é a assinatura de Deus. Ele passa de venerável a bem-aventurado ou beato. Aí, novamente dá-se um tempo indefinido para que surja um segundo milagre, tendo que ser rápido, eficaz e inexplicável. Nesse caso, ele passa de bem-aventurado ou beato para santo. Tem que ser algo 100% impossível", destacou o padre Jurandir.
Durante o processo, relatos de graças alcançadas por fiéis são investigados, mas nem todos são aceitos. Um dos casos analisados envolve uma mulher que engravidou após rezar no túmulo de Monsenhor Nakamura, mesmo com dificuldades médicas.
"Eram 99% de chance de não gravidar e 1% [de engravidar]. Para a igreja, esse 1% não deixaria de ser algo inexplicável", disse.
Outro critério importante é que o pedido da graça seja direcionado exclusivamente ao candidato. Se a pessoa reza para mais de um santo ao mesmo tempo, não há como comprovar a intercessão específica ao Monsenhor Nakamura.
Sem prazo definido, o processo segue agora sob análise do Vaticano. De acordo com o padre Jurandir, essa demora faz parte do rigor da Igreja.
Enquanto isso, a devoção popular e os relatos de graças continuam sendo acompanhados, podendo futuramente contribuir para o avanço da causa.
Vice-postulador da Causa, Padre Leandro César Martins, comunicou ao Papa Leão XIV sobre o objetivo de sua viagem a Roma
Padre Leandro César Martins/Imagem Cedidas
Initial plugin text
Veja mais notícias no g1 Presidente Prudente e Região
VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM