Número de presos de outros estados no RJ cresce 63% em 4 anos, aponta secretaria

  • 05/05/2026
(Foto: Reprodução)
Investigações mostram que criminosos de outros estados buscam refúgio no RJ O número de presos no Rio de Janeiro com mandados expedidos por outros estados cresceu 63% entre 2022 e 2025, segundo um levantamento da Secretaria de Polícia Penal. O dado expõe um movimento cada vez mais evidente: criminosos de fora do estado têm migrado para o Rio em busca de abrigo — e, em muitos casos, para ampliar o domínio territorial das facções. Este é o segundo episódio da série especial do RJ2 sobre o avanço do crime organizado. A reportagem mostra como essa migração impacta a segurança pública e a vida de moradores em áreas dominadas. Só nos dois primeiros meses de 2026, 861 criminosos de outros estados foram presos no Rio — número cinco vezes maior que no mesmo período do ano passado. Hoje, eles já representam cerca de 10% da população carcerária fluminense. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Expansão e domínio Criminalidade no Rio Reprodução/TV Globo O crescimento das facções tem avançado sobre áreas que antes estavam sob controle do Estado. Ruas e bairros inteiros, próximos a comunidades dominadas, passaram a sofrer influência direta de traficantes e milicianos. O modo de atuação desses grupos tem se aproximado: eles ocupam brechas deixadas pela ausência de controle territorial por parte da polícia. Na Zona Norte do Rio, o proprietário de um prédio viu o próprio imóvel ser tomado pelo tráfico após o fortalecimento de criminosos em uma comunidade próxima, a partir de 2021. “Eles começaram a ver diariamente traficantes circulando armados na região. Inclusive, uma época eles montaram uma barricada na minha porta, do meu imóvel. A partir daquele ponto pra dentro, ficou como se a área fosse realmente dominada por eles”, conta. Com a instalação da barricada, uma nova lógica passou a valer. “Eles eram abordados quando chegavam no local. Quando você vinha de transporte e tal também era abordado. A recomendação é abordar as pessoas de forma aleatória na localidade. Verificar o celular. Eles pedem pra desbloquear o celular pra saber se tem alguma mensagem suspeita.” Com o tempo, os criminosos assumiram o controle do prédio. “Eu tive o meu patrimônio tomado por uma facção criminosa. E o recado foi claro: se eu aparecesse lá, não sairia com vida. Os traficantes entraram no meu imóvel, abordaram as pessoas que lá residiam, os locatários, e a partir daquele momento eles disseram que qualquer pagamento a título de aluguel seria direcionado a eles, que caso fosse pago ao proprietário, eles sofreriam consequências, inclusive pondo em risco a própria vida.” O proprietário perdeu o imóvel na prática — e também a renda. Uma operação policial foi feita na época e prendeu alguns traficantes. Mas 5 anos depois, o prédio continua sob domínio do tráfico. Enquanto isso, o dono enfrenta cobranças judiciais porque deixou de pagar o IPTU do imóvel. “O Estado não foi capaz de impedir o avanço do tráfico nessa localidade que está o teu imóvel. E hoje esse mesmo estado te cobra por impostos pelo uso de um imóvel, que na verdade é explorado pelo tráfico de drogas?”, questiona o morador. “Eu continuo sem acesso ao bem. A renda que eu tinha, perdida totalmente. E continuo correndo risco de novas investidas do estado pra cobrança desses impostos, que recaem ainda, continuam recaindo sobre esse bem. Não só IPTU, como taxa de incêndio, como taxa de água.” A Prefeitura do Rio disse que o processo é por débitos entre 2016 e 2019 e que não há qualquer pedido de anistia administrativa das dívidas. LEIA TAMBÉM: Separados por 2,5 km, moradores da Muzema e Rio das Pedras sofrem com regras impostas por milicianos e traficantes; veja imagens Globoplay estreia 'Territórios - Sob o Domínio do Crime', produção do Jornalismo da Globo sobre desafios da segurança pública no Brasil Crime sem fronteiras Criminalidade no Rio Reprodução/TV Globo Para a polícia, a expansão territorial das facções está diretamente ligada a esse fluxo de criminosos de outros estados. “Nos últimos anos, com as restrições das operações policiais, a gente percebe que houve um momento oportuno pra que o crime organizado se fortalecesse dentro das favelas. Se há uma década o criminoso se escondia nas favelas, ele passou a fazer questão de não se esconder e dominar bairros inteiros", fala o delegado e coordenador da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), Fabrício Oliveira. “Ipase, por exemplo, Brás de Pina, região da Penha, Cordovil, de bairros tradicionais aqui do Rio de Janeiro que tinham problemas pontuais, passaram a ser dominados pelo crime organizado.” Esse cenário transformou o Rio em uma espécie de base para organizações como o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro. Criminosos de outros estados vêm em busca de proteção, se escondendo em áreas de difícil acesso para a polícia. De acordo com o delegado Moysés Santana, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), a chegada desses criminosos amplia o alcance das facções. “Internamente, eles se usam essa mão-de-obra. E externamente eles também se valem dessa conexão e dos contatos que esses criminosos trazem para o Rio de Janeiro com contatos na fronteira, contatos de países fronteiriços com Brasil, principalmente na região Norte do país, estados do Pará, Amazonas, Roraima, e também ali no Centro-Oeste, com fronteiras com Paraguai, Bolívia, Suriname”, diz. “Ao mesmo tempo, o Comando Vermelho vem também exportando esse modus operandi, exportando todo esse know-how do domínio territorial”, acrescenta. Muitos são foragidos que encontram abrigo em áreas controladas por facções. O avanço desse movimento aparece de forma clara nos números do sistema penitenciário: 2022: 677 presos com mandados de outros estados 2023: 848 2024: 914 2025: 1.105 O crescimento acumulado em 4 anos chega a 63%. Nos dois primeiros meses de 2026, foram 861 prisões desse tipo — alta de 497% em relação ao mesmo período de 2025 (144). Os detentos vindos de fora já representam cerca de 10% da população carcerária do estado. Minas Gerais, Bahia e São Paulo lideram a origem desses presos. Criminalidade no Rio Reprodução/TV Globo Liderança e estratégia Em alguns casos, esses criminosos chegam ao Rio para ocupar posições estratégicas nas facções, como o traficantes Zeus, de Rondônia. Depois de cumprir pena com Fernandinho Beira-Mar, chefe do Comando Vermelho, Zeus ganhou o controle da Muzema, em Jacarepaguá. Fernandinho Beira-Mar Reprodução/TV Globo É o caso também de Rafael Carlos da Silva Ferreira, o Parazão ou Paraíba. Ele é um dos chefes do TCP em Minas Gerais. Segundo a polícia, ele está no Rio, onde comanda o tráfico no Morro da Mineira, no Catumbi. Os criminosos de outros estados se distribuem entre os principais complexos de favela do Rio. Na Penha e no Alemão, há chefes do Comando Vermelho do Amazonas e do Pará, como Rodolfo Nascimento Silva, o Mãozinha. E da Paraíba, como Flávio de Lima Monteiro, o Fatoka. Na Rocinha, estão escondidos chefes do CV do Ceará, como José Mario Pires. A Maré, além de abrigar chefes do CV, é esconderijo para criminosos do TCP do Espírito Santo. O Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, também serve de abrigo para traficantes do Pará, entre eles, Arleson Pantoja do Nascimento, chefe do CV no estado. No Vidigal, há duas semanas, a polícia esteve perto de prender Ednaldo Pereira Souza, o Dada, da Bahia, que também tem se escondido na Rocinha. Mas ele conseguiu fugir por uma passagem secreta. A promotora Letícia Emile, do Gaeco Reprodução/TV Globo Para a promotora Letícia Emile, do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, o Rio se tornou um polo de articulação do crime organizado. “O Rio de Janeiro hoje em dia funciona como um berço para criminalidade organizada. Outros criminosos migram para o Rio de Janeiro para aprenderem inclusive táticas e formas de atuação de um crime com o a criminalidade local.” Segundo ela, as facções ampliaram a atuação para além do tráfico, estabelecendo parcerias com outros tipos de crime. “A gente percebe que a facção Comando Vermelho vem avançando com relação à estratégia de crime. Ela não está só mais unicamente, umbilicalmente ligada ao tráfico de drogas.”

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/05/05/numero-de-presos-de-outros-estados-no-rj-cresce-63percent-em-4-anos-aponta-secretaria.ghtml


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