'O Agente Secreto' transforma o Recife em cenário e vitrine e leva ao mundo paixão pelo cinema pernambucano

  • 14/03/2026
(Foto: Reprodução)
O Recife de 1977 reconstituído por 'O Agente Secreto' CinemaScopio/Divulgação Ruas, prédios históricos, parques e praças do Recife aparecem como cenário de "O Agente Secreto", produção dirigida por Kleber Mendonça Filho e estrelada por Wagner Moura. Gravado em quase 50 pontos da capital pernambucana, o filme transforma a cidade em vitrine e projeta para plateias de diferentes países a paixão pelo cinema feito em Pernambuco. Entre os cenários do longa está o Cinema São Luiz, um dos cinemas de rua mais icônicos do país, inaugurado em 1952 no Centro da cidade. O prédio histórico aparece em várias cenas do filme e hoje recebe sessões da própria produção — uma experiência curiosa para o público, que assiste na tela a um espaço onde está sentado. ✅ Receba as notícias do g1 PE no WhatsApp "O Agente Secreto" recebeu quatro indicações ao Oscar: melhor ator, melhor filme, melhor filme internacional e melhor elenco. O longa também fez história ao ganhar dois prêmios no Globo de Ouro deste ano e dois prêmios no Festival de Cannes de 2025. No São Luiz, o cinema não apenas exibe o longa-metragem. Ele também aparece dentro da narrativa, transformando o próprio espaço em parte da história. Quando o público entra na sala, muitos têm a sensação de se reconhecer na tela. No domingo, "O Agente Secreto" concorre ao Oscar em 4 categorias; uma delas é nova, Melhor Seleção de Elenco A relação entre o espaço e o filme começa antes mesmo da sessão. As luzes se apagam, os vitrais do cinema se acendem e, naquele momento, o ritual tradicional do cinema de rua prepara a plateia para uma história que tem muito da própria cidade. O gestor do cinema, Gustavo Coimbra, conhece esse ritual desde criança. Ele lembra das idas ao São Luiz com a família, quando assistir a um filme era também participar de uma tradição. “Quando criança, na adolescência, principalmente criança, eu vinha muito com minha mãe, meus irmãos, assistir aos filmes. 'Superman', essas coisas que sempre gostei muito. A gente ia muito no Veneza [cinema de rua fechado no final dos anos 1990] e no São Luiz. Mas o São Luiz eu frequentava mais”, conta. Cinema São Luiz em 'O Agente Secreto' CinemaScopio/Divulgação Segundo ele, a mãe fazia questão de chegar cedo para acompanhar todo o processo da sessão. “Minha mãe tinha uma preocupação de a gente sair na hora certinha, tudo direitinho, para ver o ritual: as luzes apagando, os vitrais acendendo.” Hoje, Gustavo está do outro lado da experiência. É ele quem acende os vitrais do cinema antes das sessões. "Hoje a gente está aqui, eu estou aqui trabalhando no cinema e eu fazer os vitrais acenderem, aquilo que eu vinha ver com minha mãe quando pequeno, isso é inexplicável, é gratificante demais”, contou. Para ele, assistir ao filme dentro do próprio São Luiz cria uma sensação especial. “Você está dentro da história a partir do momento em que você está ali dentro daquela mesma área, olhando para aquilo que o cara da trama estava olhando. E você está ali dentro, você entra um pouco no filme naquele momento. Só a gente tem isso”, afirma. O sucesso de "O Agente Secreto" também tem levado novos visitantes ao cinema. Segundo funcionários do espaço, há pessoas que nunca tinham entrado no São Luiz e decidiram conhecer o local depois de assistir ao filme. “Tem gente, pessoas com certa idade já, que nunca tinha entrado aqui no São Luiz e está vindo por conta de ‘O Agente Secreto’”, diz Gustavo. João Bosco, projecionista do Cinema São Luiz, atuou em 'O Agente Secreto' Reprodução/TV Globo Quem também acompanha esse movimento é o projecionista João Bosco, um dos mais antigos do cinema. Ele afirma que percebeu uma mudança no público desde a estreia do longa. “O público já estava com aquilo na mente, que o cinema [de rua] estava afracando, mas quando chegou ‘O Agente Secreto’, lotou de novo”, conta. Em "O Agente Secreto", Seu Alexandre, sogro do protagonista, trabalha como projecionista no São Luiz. Bosco também participou do filme, ainda que rapidamente, e conta que chegou a passar informações a Carlos Francisco, que interpreta o personagem. “Eu apareci no filme como porteiro, numa cena. Rapidamente, mas apareci no filme”, diz. Acostumado a trabalhar nos bastidores da projeção, ele afirma que a experiência foi diferente. “Eu estava acostumado a exibir filme. Participar, não. Aí Kleber falou para mim: 'Você vai participar do filme'. Eu conheci Seu Alexandre. Até passei para ele algumas informações do projetor. Eu fico olhando para ele, assim, e me sinto como se eu estivesse ali, fazendo aquela cena com ele”, lembra. Tradição que atravessa um século Cartazes dos filmes 'A Filha do Advogado', 'Baile Perfumado' e 'Amarelo Manga' Montagem/g1 Nos últimos anos, filmes de Kleber Mendonça Filho também reforçaram a ligação entre cidade e narrativa, como "Aquarius", "Bacurau" e "Retratos Fantasmas". Entretanto, a relação entre o Recife e o cinema não começou agora. Um dos primeiros filmes feitos na cidade foi "A Filha do Advogado", dirigido por Jota Soares há exatos 100 anos, em 1926. Nas décadas seguintes, outras produções também usaram histórias e cenários da região, como "Amarelo Manga" (de 2002, dirigido por Cláudio Assis) e "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005, de Marcelo Gomes). Mas Pernambuco tem uma das cinematografias regionais mais antigas e consistentes do Brasil, marcada por diferentes ciclos de produção e por uma forte relação entre cinema, cidade e cultura local. O cinema chegou ao estado poucos meses depois das primeiras projeções públicas realizadas pelos Auguste Lumière e Louis Lumière em Paris, consideradas o marco inicial da história da sétima arte. Em 13 de setembro de 1896, o produtor Francisco Pereira de Lyra exibiu imagens em movimento usando um aparelho chamado kinetographo, no bairro de São José, no Recife. Poucos anos depois, o cinema começou a ganhar espaços permanentes na cidade, com os cinemas Pathé — o primeiro de todos — inaugurado em 1909 e Helvética, Eclypse, Polytheama, Éclair e Moderno. E, desde o início do século 20, o Recife passou a aparecer nas telas — primeiro, como cenário de experiências pioneiras e, mais tarde, como personagem de filmes que dialogam com a identidade cultural da região. Essa trajetória costuma ser dividida em ciclos do cinema pernambucano. Nos anos 1920, o estado viveu o chamado Ciclo do Recife, um movimento pioneiro de produção cinematográfica que transformou a cidade em um dos principais centros de cinema do país. Entre 1923 e 1931 foram produzidos cerca de 13 filmes de ficção, realizados por grupos de jovens cineastas que buscavam contar histórias locais e criar uma indústria cinematográfica fora do eixo Rio-São Paulo. Entre os pioneiros estavam nomes como Gentil Roiz, Edson Chagas, Ary Severo e Jota Soares, ligados à produtora Aurora Filmes, responsável por obras como "Retribuição" e "Aitaré da Praia". Décadas depois, outro momento importante surgiu com o movimento Super-8, nos anos 1970, quando o barateamento das câmeras permitiu que novos realizadores experimentassem linguagens e narrativas. O movimento se fortaleceu a partir de 1973 e revelou nomes como Fernando Spencer, Celso Marconi e Athos Cardoso. Nos anos 1990, uma nova geração ajudou a recolocar Pernambuco no mapa do cinema nacional. Filmes como "Baile Perfumado" (de 1996, dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas) marcaram essa retomada, seguidos por produções que ganharam repercussão dentro e fora do país, como "O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas" (2000, de Paulo Caldas e Marcelo Luna) e o já citado "Amarelo Manga". Nas últimas décadas, o cinema produzido no estado passou a circular com frequência em festivais internacionais. Diretores como Kleber Mendonça Filho, Cláudio Assis, Marcelo Gomes e Gabriel Mascaro ajudaram a consolidar essa projeção. O Recife como personagem Imagem em 'Retratos fantasmas' Divulgação Enquanto o público local reconhece lugares da cidade na tela, o filme também apresenta o Recife para espectadores de outros países. Em entrevista em Londres, durante a agenda internacional de divulgação do filme, Kleber Mendonça Filho falou sobre a importância de um país contar suas próprias histórias por meio do cinema. “O cinema, claro, a televisão, as séries, é uma maneira muito forte e poderosa de contar histórias. E é essencial que um país, no nosso caso o Brasil, consiga se ver, se ouvir e ver histórias que você diga: isso aqui faz parte de quem somos”, afirmou. Segundo ele, outras cinematografias fazem isso com frequência. Para o diretor, fazer cinema é também ocupar esse espaço de expressão. “Os americanos fazem isso muito bem, os europeus fazem, os japoneses, os indianos. Eu acho que é muito importante que nós tenhamos algo a dizer. É feito você estar numa conversa e você dizer: eu tenho uma coisa para falar”, declarou. Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura nas filmagens de "O Agente Secreto" Laura Castor/Divulgação O ator Wagner Moura também destacou a importância dessa troca cultural. Ele afirma que sua própria visão sobre outros países foi construída a partir do cinema. "Eu cresci vendo cinema americano. Então o meu entendimento do que os Estados Unidos são tem a ver com os filmes que eu vi, com os diretores americanos. É muito importante e tem sido muito bonito ver as pessoas falando do Brasil a partir desse filme, desde sobre o que era a ditadura militar no Brasil até a Perna Cabeluda. São dados da cultura do Brasil sendo exportados”, disse. Para ele, é significativo que o público estrangeiro esteja conhecendo o Brasil por meio da produção. Além do reconhecimento internacional, Wagner destaca o impacto do cinema dentro do próprio país. “Eu acho mais bonito ainda que nós, brasileiros, vejamos o nosso cinema, nossa cultura, nossa arte, nossa literatura, teatro, artes visuais, porque isso nos informa quem nós somos. Cria identidade e cria autoestima”, declarou. Novas gerações mantêm tradição Gravações do filme 'Tainara', de Juliana Soares Lima e Igor Travassos, na Ilha de Deus, no Recife Reprodução/TV Globo Mais de um século depois das primeiras exibições de cinema no Recife, novas gerações de realizadores continuam surgindo no estado. Muitos começam em curtas-metragens, projetos independentes ou oficinas comunitárias e passam a integrar uma cadeia de produção que envolve técnicos, atores e produtores locais. Projetos e produções independentes têm aproximado jovens do audiovisual em bairros e comunidades do Recife. Na Ilha de Deus, por exemplo, moradores participaram e acompanharam de perto as etapas de filmagem do curta-metragem “Tainara”, de Juliana Soares e Igor Travassos. Juliana trabalhou em "O Agente Secreto", e hoje dirige o próprio filme, assim como Kléber Mendonça Filho incentivou no discurso do Globo de Ouro, ao levar o prêmio de melhor filme em língua não-inglesa. "Tainara" conta a história de uma menina perdeu a mãe e o irmão nas fortes chuvas que atingiram o Grande Recife em 2022, deixando mais de 130 mortos. Ela passa a viver com a tia na Ilha de Deus, tradicional comunidade pesqueira da Zona Sul do Recife, entre viveiros de camarão e o mangue, encontra na imaginação uma forma de lidar com o luto. "Eu acho que, primeiro, é uma sorte muito grande de a gente ter um curso de cinema e audiovisual numa universidade pública no Recife. Eu conheci Igor na universidade e, hoje, a gente traz pessoas que estão se formando para a nossa equipe. A graça do cinema pernambucano é a história de registrar essas paisagens que não são muito vistas. [...] Acho que tem uma paisagem muito especial nesses lugares do Recife, e uma preocupação muito bonita em registrar as pessoas desses lugares. A cultura, os hábitos, os rostos. É isso que torna o cinema pernambucano e recifense tão especial", disse. Já Igor acredita que o cinema pernambucano tem, como particularidade, as pessoas e a coragem de não disfarçar a realidade. "É gente no ônibus, em estação de metrô, no meio da cidade, no Centro, gente trabalhadora. Essa é uma característica que faz a gente ver o Recife. Não disfarçar a realidade, porque é uma realidade tão bonita que é ficção. É o modo como a gente fala, é um pano de prato que a gente coloca no ombro, é a fofoca na frente de casa, e esses hábitos do dia a dia que a gente não vê num cinema que não é nosso. Quando a gente se apropria disso e começa a fazer cinema, a gente se reconhece nos mínimos detahes", disse. Renata Roberta pesquisa elenco para filmes e descobriu Tânia Maria Reprodução/TV Globo O Edifício Pernambuco, no Centro da cidade, é um exemplo da força do cinema pernambucano, e de como ele resiste e se reinventa. No prédio de arquitetura icônica construído em 1963, funciona uma espécie de polo do audiovisual, com diversas empresas que atuam nos bastidores das produções. Projetos, financiamentos, edição... Lá, todas essas etapas se encontram. Uma dessas trabalhadoras é Renata Roberta, que pesquisa elenco para filmes. Ela já morou no Rio de Janeiro e em São Paulo e, aproveitando o bom momento do cinema pernambucano, voltou para o Recife. Hoje, escolhe os figurantes e elenco adicional dos filmes de Kleber Mendonça Filho. Ela trabalhou em todas as obras dele, desde o curta "Recife Frio". "A população, a cidade, o povo, aqueles que têm poucas falas, que dão um bom-dia, um 'olha ali'. Essa é a minha galera. É com essas pessoas que eu costumo trabalhar e produzir, de uma maneira muito específica, considerando um corpo coral. Pensando as pessoas como uma demografia, como a população de um universo fantástico, de cada filme", contou. Tânia Maria em 'Bacurau' (à esquerda) e em 'O Agente Secreto' (à direita) Divulgação Foi ela quem, na pesquisa por figurante para "Barurau", descobriu e primeiro se apaixonou por Tânia Maria, a icônica Dona Sebastiana. Ela, que nem atriz era, morava no povoado Cobra, em Parelhas (RN). Renata foi "estiar" a chuva em frente a uma casa e foi abordada por uma moradora, curiosa com o trabalho da equipe. "Saiu essa senhora tentando entender que barulho era esse numa cidade que tem menos de 10 mil habitantes. Qualquer pessoa estranha é um grande evento. Quando ela falou comigo, fiquei muito apaixonada. Achei a voz dela incrível, achei ela incrível. [...] Ela ficou muito animada, disse que queria ser atriz e eu contratei na hora, que é uma coisa que não posso fazer. Mas fiquei apaixonada por ela desde o início. Convidei ela para fazer a figuração em Bacurau, que foi aprovada pelo próprio Kleber. Fico muito orguhosa e feliz por ter participado da trajetória dela. Sou uma grande fã", declarou. Turismo 'secreto' Ambientado em 1977, o filme foi gravado em quase 50 locais do Recife. Com cenografia e efeitos visuais, diversos espaços da cidade voltaram ao visual da época. Hoje, alguns desses lugares têm atraído curiosos e fãs da produção. O recifense Roberto Tavares assistiu ao filme várias vezes e passou a visitar as locações. “A gente sai da Praça do Arsenal e vai percorrendo algumas das principais locações”, explica. Entre os pontos estão o próprio São Luiz, o Ginásio Pernambucano e a Rua da União. Segundo ele, muitos moradores redescobrem a cidade ao perceber que lugares do cotidiano aparecem na tela. “É bom ver o público da casa com os olhos brilhando mesmo”, afirma. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

FONTE: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2026/03/14/o-agente-secreto-transforma-o-recife-em-cenario-e-vitrine-e-leva-ao-mundo-paixao-pelo-cinema-pernambucano.ghtml


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