O que é o arsênio, substância usada por secretária para envenenar médico de 90 anos no ES
28/02/2026
(Foto: Reprodução) Arsênio foi encontrado em médico de 90 anos de Vitória, Espírito Santo, e suspeita é que ex-funcionária dava água de coco envenenada
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Presente na conservação de madeira, na produção de ligas metálicas e em herbicidas, o arsênio voltou ao noticiário após ser apontado como substância usada no envenenamento do médico cardiologista Victor Murad, de 90 anos, em Vitória.
O médico afirma ter sido envenenado pela própria secretária, Bruna Garcia, que, segundo a investigação, também desviou dinheiro de suas contas ao longo de anos. Ela está presa, acusada de desviar mais de R$ 500 mil e colocar arsênio na água de coco servida ao profissional.
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De acordo com a Polícia Científica, desde 2012 foram registrados seis casos positivos de intoxicação por arsênio no estado. Antes do episódio envolvendo o cardiologista, o último registro havia sido em 2014.
O pós-doutor em Ciências e professor dos cursos de Química e Farmácia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Wanderson Romão, explicou que a administração do arsênio em humanos é incomum e restrito a situações específicas.
Médico fala sobre envenenamento por arsênio no ES
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Como exemplo, ele citou o tratamento de pacientes em remissão de leucemia promielocítica aguda. Por isso, segundo o professor, tanto a comercialização quanto a aplicação devem ser monitoradas para evitar intoxicações que podem levar à morte.
Atualmente, cerca de 70% do consumo mundial da substância ocorre como conservante de madeira, na forma de arseniato de cobre e cromo. O elemento também é empregado na indústria de tecnologia e no agronegócio.
“Vemos também o uso na fabricação de semicondutores nas indústrias do silício, em aditivos de ligas metálicas para gerar um elemento menos pesado para a fabricação de computadores, por exemplo. Ou também ligado ao sódio pela indústria do agro para a fabricação de herbicidas e inseticidas, em alguns casos”, explicou o professor.
Substância sem cheiro, cor ou gosto
As investigações envolvendo o caso do cardiologista capixaba apontaram que um frasco contendo 100 gramas de óxido de arsênio (As₂O₃), também chamado de trióxido de arsênio, foi comprado por Bruna Garcia em uma loja que fornece artigos para laboratórios, no Centro de Vitória.
Para a compra no valor de R$ 49,50, foi utilizado o nome e o CNPJ do marido, de acordo com nota fiscal localizada durante as investigações.
A secretária Bruna Garcia, suspeita de envenenar médico de 90 anos, comprou 100 gramas de arsênio por R$ 49,50, em Vitória, de acordo com nota fiscal localizada durante as investigações
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Segundo o professor da Ufes, o trióxido de arsênio é uma das formas mais comuns no mercado, geralmente apresentado como pó branco.
"O trióxido de arsênio é um pó branco, não tem cheiro, nem cor, nem gosto, o que facilita o uso por envenenamento por criminosos. Já em casos de intoxicação menos graves, provoca vômitos violentos, diarreias, dores abdominais", afirmou.
Dependendo da quantidade administrada, a substância pode causar a morte. Em doses menores e repetidas, pode provocar intoxicação crônica.
Lacunas na legislação
Em 2025, o Conselho Federal de Química (CFQ) se manifestou sobre a necessidade de um controle mais rigoroso para a produção e comercialização de algumas substâncias arsenicais, após a morte de uma adolescente depois de comer um bolo envenenado, em São Paulo.
O professor Romão corrobora com a necessidade de se trabalhar para ter uma legislação que minimize os riscos de mau uso para todos os tipos de substâncias com arsênio.
“O problema nunca é o que existe na natureza, sempre são as pessoas, principalmente nesse caso. O arsênio está sendo tirado de contexto, da indústria e da finalidade que deveria ter, colocado em um ambiente que não deveria estar, com um objetivo bem claro que é o criminal”, avaliou.
No Brasil, o Exército regula a venda e o uso de substâncias como o tricloreto de arsênio e o hidreto de arsênio (arsina), usados principalmente em fins militares. No entanto, segundo o CFQ, há lacunas na regulamentação do óxido de arsênio e de outros compostos arsenicais.
Projetos de Lei n° 1381/2025, do deputado federal Gilson Daniel (PODE-ES), e nº 985/2025, do deputado federal Lula da Fonte (PP/PE), são exemplos de ementas propostas com o objetivo de corrigir essa brecha.
Os textos falam sobre a proibição da venda de substâncias arsenicais a pessoas físicas, criando um controle mais rigoroso sobre o transporte, o armazenamento, além da identificação do comprador e a justificativa técnica de uso.
Médico Victor Murad, 90 anos, foi envenenado pela secretária Bruna Garcia para encobrir roubo de R$ 700 mil em clínica, no Espírito Santo
Reprodução
O primeiro aguarda designação de relator na Comissão de Indústria, Comércio e Serviços (CICS), enquanto o segundo aguarda parecer da Comissão de Saúde (CSAUDE).
Enquanto isso, empresas que comercializam produtos químicos devem estar registradas no Sistema CFQ/CRQs e cumprir exigências de licenciamento ambiental e sanitário, conforme o Inventário Nacional de Substâncias Químicas.
Entenda caso do médico capixaba
O médico cardiologista Victor Murad, de 90 anos, alega ter sido envenenado lentamente por sua própria secretária, Bruna Garcia, funcionária de confiança, que é investigada por desviar dinheiro de suas contas.
O caso, que agora é tratado pela polícia e pelo Ministério Público como tentativa de homicídio qualificado associada a fraude financeira.
Clínica do médico Victor Murad, que diz ter sofrido envenenamento por arsênio, está fechada, em Vitória, Espírito Santo
TV Gazeta
Bruna trabalhava na clínica de Murad desde 2013. Ela é filha de uma antiga funcionária que trabalhou com o cardiologista por duas décadas. Por causa desse vínculo, a secretária detinha controle total sobre as finanças do médico, que não utilizava ferramentas digitais como o PIX.
"Confiava cegamente nela, foi esse meu mal. Acreditava nela, assim, ela encanta qualquer um. É uma serpente", desabafou o médico.
A investigação aponta que Bruna desviou R$ 544 mil ao longo de 12 anos. O dinheiro era usado para financiar um padrão de vida luxuoso, com viagens para a Disney e hotéis de alto padrão, enquanto o médico via seu patrimônio diminuir sem explicação.
"Quando eu fui uma vez questionar o gerente, falei: 'Como é que pode que meu saldo não sobe?'. O gerente dizia que eu estava gastando demais. E era ela que estava tirando o dinheiro", relata Murad.
Segundo o promotor Rodrigo Monteiro, os saques eram frequentes e variados: "Eram valores de três, quatro, até dez mil reais. Às vezes duas, três transferências no mesmo dia".
Cortina de fumaça
Para o Ministério Público, o envenenamento começou quando os desvios ficaram prestes a ser descobertos. A intenção da secretária seria jogar uma cortina de fumaça e afastar a responsabilidade pelos crimes financeiros através da morte da vítima.
Enquanto Bruna ostentava em redes sociais, o médico apresentava sintomas graves e inexplicáveis:
Dores intensas e vômitos com sangue;
Anemia profunda e fraqueza nas pernas;
Agravamento dos tremores e rigidez da doença de Parkinson.
O veneno, segundo a polícia, era misturado à comida e à água de coco servidas na clínica. Devido ao mal-estar constante, Victor Murad precisou fechar o consultório que mantinha há mais de 30 anos.
Defesa nega acusações
Bruna Garcia está presa desde outubro e deve ser levada a júri popular por tentativa de homicídio qualificado. O advogado de defesa, James Gouveia, nega todas as acusações.
"Ter um laudo que foi envenenado não comprova que a Bruna o envenenou. Pode ter sido outra pessoa, pode ter sido acidental", afirmou o advogado.
Bruna Garcia Barbosa, suspeita de envenenar um médico de 90 anos por arsênio para encobrir um desvio de cerca de R$ 700 mil, no Espírito Santo
Reprodução/TV Gazeta
Sobre o dinheiro, a defesa sustenta que toda a movimentação financeira era de conhecimento do médico e devidamente autorizada por ele.
O marido da suspeita, Alisson Oliveira Marinho, chegou a ser preso preventivamente em setembro do ano passado, com a esposa, mas acabou sendo solto em novembro devido à ausência de indícios de participação no crime.
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