O que sucesso de assistente de IA na China diz sobre ambições do país
08/04/2026
(Foto: Reprodução) O assistente de IA OpenClaw despertou um frenesi na China em março, com seus usuários "criando lagostas" (treinando a ferramenta de acordo com as suas necessidades)
REUTERS/Florence Lo
"Você é uma lagosta?" foi a primeira questão de Wang para a BBC.
Ele esteve tão imerso no uso do assistente de inteligência artificial (IA) OpenClaw (conhecido na China pelo nome de "lagosta") que não sabia se estava falando com IA ou com jornalistas.
Depois de respondermos que não era o caso, o jovem engenheiro de TI explicou como havia "mergulhado" na IA e, especialmente, no OpenClaw.
Incentivada pela liderança chinesa, a segunda maior economia do mundo abraçou a inteligência artificial, despertando curiosidade e preocupação.
Criado pelo desenvolvedor austríaco Peter Steinberger, o OpenClaw é um exemplo deste fenômeno.
Construído com dados e tecnologia em domínio público, o código é disponível para quem quiser personalizá-lo para trabalhar com modelos chineses de IA. Esta é uma enorme vantagem, pois os modelos ocidentais não são acessíveis na China, como o ChatGPT e o Claude.
Por isso, o OpenClaw despertou um frenesi no país, com cada vez mais pessoas experimentando o código.
Wang foi uma dessas pessoas. Ele não compartilhou seu nome completo porque mantém, como negócio paralelo, uma loja online que vende gadgets digitais no TikTok, o que é proibido na China.
Ele diz que ficou impressionador quando percebeu, pela primeira vez, o que sua "lagosta" (construída com o código do OpenClaw e alterada para seu uso) podfia fazer.
Carregar produtos na loja do TikTok é trabalhoso. Ele precisa adicionar imagens, escrever títulos e descrições, definir preços e descontos, se inscrever em campanhas e enviar mensagens para influenciadores. Normalmente, ele consegue administrar cerca de 12 listagens por dia.
Mas a sua "lagosta", ainda em fase de testes, pode fazer até 200 listagens em apenas dois minutos, segundo ele.
"É assustador, mas também é fascinante", ele conta. "Minha lagosta é melhor nisso do que eu."
"Ela escreve melhor e pode comparar meus preços instantaneamente com cada concorrente, algo que eu nunca teria tempo de fazer."
O OpenClaw já havia explodido na comunidade global de tecnologia. O CEO (diretor-executivo) da Nvidia, Jensen Huang, chamou a ferramenta de "o próximo ChatGPT". Seu desenvolvedor, Peter Steinberger, entrou recentemente para a OpenAI.
Mas o entusiasmo que transformou o OpenClaw em tendência foi "exclusivamente chinês", segundo Wendy Chang, do centro de estudos MERICS.
Wang chamou a OpenClaw de "a resposta da era da IA para as pessoas comuns". E as gigantes chinesas da tecnologia aparentemente concordam, já que estão publicando aplicativos construídos com base no OpenClaw.
Do centro de tecnologia de Shenzhen, no sul do país, até a capital, Pequim, centenas de pessoas fizeram fila no lado de fora da sede das empresas Tencent e Baidu, em busca de versões personalizadas gratuitas.
Entre os interessados estavam desde estudantes do ensino médio até aposentados. Muitos deles estavam curiosos para saber mais sobre as "lagostas".
Alguns usuários online contam que as usaram para investir em ações. As "lagostas" analisaram qual o melhor momento para comprar e vender e até fecharam os negócios, mesmo correndo o risco de terem prejuízo.
Outros afirmam que as ferramentas foram ótimas para fazer múltiplas tarefas e economizar tempo.
O famoso escritor e comediante chinês Li Dan contou aos seus milhões de seguidores no Douyin (a versão chinesa do TikTok) que ficou tão imerso no OpenClaw que chegava a sonhar que falava com sua lagosta.
O CEO da Cheetah Mobile, Fu Sheng, compartilhou incansavelmente nas redes sociais como ele "criou sua lagosta" — a expressão adotada para descrever o treinamento do assistente para atender necessidades específicas.
Anos de investimento
A China já estava sendo tomada pela febre da IA há algum tempo.
Quando o aplicativo chinês DeepSeek explodiu no mundo da IA, no início do ano passado, parecia que muitas pessoas haviam sido pegas de surpresa. Ele também é uma plataforma de código aberto, desenvolvida por engenheiros do país, formados em universidades chinesas de elite.
O DeepSeek surgiu após anos de investimentos para desenvolver tecnologia básica, incluindo a IA, que só aumentaram após o sucesso do aplicativo.
O que a ferramenta demonstrou foi o apetite inovador dos chineses para buscar oportunidades de pesquisa e inovação, apesar das restrições à importação de tecnologia avançada. E também comprovou como as pessoas estão ansiosas para adotar plataformas de código aberto.
Tudo isso formou o cenário perfeito para a chegada do OpenClaw.
Sua popularidade não passou despercebida pelo governo chinês. Diversas cidades e regiões forneceram incentivos para que os empresários usassem o OpenClaw nas suas companhias.
A cidade de Wuxi, no leste do país, ofereceu até cinco milhões de yuans (US$ 726 mil, cerca de R$ 3,7 milhões) para usos do aplicativo, como em robôs, na produção industrial.
"Todos na China sabem que o governo define o passo e diz a você onde estão as oportunidades", explica Rui Ma, fundador da newsletter Tech Buzz China.
"É prático para a maioria das pessoas. Provavelmente, é um plano melhor, simplesmente seguir as diretrizes do governo, em vez de tentar realmente descobrir sozinho."
Por isso, quando Pequim sinaliza suas prioridades, o mercado segue.
Nos últimos anos, as companhias de tecnologia, grandes e pequenas, partiram para a corrida pela IA, apoiadas por subsídios para aluguel de escritórios, subvenções e empréstimos.
Da fabricação ao transporte, da assistência médica aos eletrônicos domésticos, as empresas chinesas buscam integrar a IA aos seus produtos e operações.
"Este é o espírito da AI Plus", afirma Chang, em referência à estratégia nacional chinesa de integração da IA pelas indústrias. "Pegue a IA e aplique em toda parte."
Mas a concorrência é acirrada. A imprensa chinesa apelidou de "Guerra dos 100 Modelos" o processo que levou ao surgimento de mais de 100 modelos de IA desde 2023, com apenas 10 ainda em contenção.
As plataformas chinesas de IA ainda estão atrás das suas concorrentes ocidentais, segundo os especialistas. Mas a distância está diminuindo.
Por isso, para as autoridades chinesas, promover a OpenClaw é uma medida estratégica, segundo a ex-pesquisadora da OpenAI, Jenny Xiao.
Grande parte do entusiasmo inicial diminuiu, quando os usuários começaram a calcular os custos envolvidos (já que a interação com o assistente ocasiona gastos) e devido às preocupações de segurança.
No mês passado, autoridades de cibersegurança de Pequim alertaram sobre os sérios riscos relacionados à instalação e ao uso inadequado do OpenClaw. Desde então, cada vez mais agências governamentais começaram a proibir os funcionários de instalar a ferramenta.
Com isso, a tendência logo deixou de ser a oferta de instalação, mas sim a sua remoção. E este tipo de contradição não é incomum no sistema vertical chinês, segundo Ma.
Muitas vezes, os governos concorrem pela aprovação de Pequim, adotando ferramentas alinhadas aos desejos da liderança do Partido Comunista, mas acabam retrocedendo quando surgem as dificuldades.
"É desordem com controle", define Ma. Ele destaca que a intervenção de Pequim não sinaliza desnecessariamente seu desestímulo.
Para começar, as startups de IA podem ajudar a combater um problema importante no país, que é a taxa de desemprego entre os jovens, de mais de 16%.
Muitos incentivos governamentais relacionados ao OpenClaw (alguns deles com subsídios de até 10 milhões de yuans, cerca de US$ 1,5 milhão ou R$ 7,5 milhões) mencionam "empresas individuais" — ou seja, start-ups, administradas por uma pessoa, com a ajuda da IA.
"Quem tem mais probabilidade de criar uma empresa individual? Provavelmente, os jovens que enfrentam um mercado de trabalho difícil", explica Xiao.
O medo de ficar para trás também é forte na China, considerando a intensa concorrência pelos empregos.
"Alguns afirmam que, em 2026, se você não 'criar lagostas', já perdeu na linha de partida", diz um comentário publicado no jornal estatal People's Daily.
"É realmente apavorante", afirma o programador de TI Jason. Sua equipe só contrata pessoas com experiência no uso de ferramentas de IA. "A maioria das pessoas está saindo e muito poucos contratados estão chegando."
Wang concorda que esta é uma época assustadora. "Qualquer pessoa pode ser substituída", mas ele não parece extremamente preocupado.
'Provavelmente não vou precisar trabalhar e este pode se tornar meu emprego em tempo integral", ele conta, em referência aos seus negócios no TikTok.
E se as "lagostas" puderem administrar suas próprias lojas e o expulsarem? "Vou usar a IA para encontrar outro negócio."
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