Planta usada no candomblé motivou pesquisa científica sobre o tratamento do câncer

  • 16/04/2026
(Foto: Reprodução)
Planta usada no candomblé motivou pesquisa científica sobre o tratamento do câncer A relação entre ciência e saberes tradicionais ainda não é algo integrado à medicina no Brasil, mas pesquisas vêm mostrando que as duas áreas podem se complementar. É nessa direção que trabalha a biomédica, professora e pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Lays Souza da Silva. Ela encontrou no candomblé a motivação para buscar uma solução para várias doenças. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Ela investiga o potencial medicinal do aranto, ou mãe-de-milhares (Kalanchoe daigremontiana Raym). Com base em pesquisas próprias e outros estudos sobre o gênero Kalanchoe, a cientista busca estabelecer um diálogo entre conhecimentos ancestrais e métodos científicos. Em 2024, Lays publicou uma pesquisa que identificou diversos compostos bioativos na planta com indícios promissores de ação antitumoral, anti-inflamatória e antioxidante. Ou seja, substâncias que podem ajudar a combater células cancerígenas, reduzir inflamações e proteger o organismo. Os testes também indicaram que a planta não apresentou sinais relevantes de toxicidade nas análises iniciais. Apesar dos resultados animadores, a pesquisadora reforça que o estudo é apenas uma evidência de uso da planta e que não significa que ela possa ser usada, neste momento, como tratamento. É necessária a aplicação de testes e outras investigações antes de qualquer uso oficial na medicina. Aranto é utilizado em culturas ancestrais iNaturalist/leaf0605 VIU ISSO? Biólogo registra encontro raro entre paca e predador na Serra Gaúcha Águia ataca drone durante monitoramento em reserva na Colômbia Do maruim ao Aedes: como mudanças ambientais favorecem novas epidemias no Brasil Tradição e ciência no laboratório Entre as espécies estudadas, o aranto já apresentava indícios de ação contra células tumorais em outros estudos. O diferencial da pesquisa conduzida por Lays está na forma de preparo: os extratos analisados seguem métodos semelhantes aos utilizados tradicionalmente, a fim de observar na prática os efeitos desse uso. Museu da Cultura Cearense - exposição sobre Umbanda e Candomblé Divulgação A trajetória de Lays nessa linha de pesquisa, no entanto, não começou no laboratório, mas em um contexto religioso. Ao se aprofundar em conhecimentos de matriz africana, ela teve o primeiro contato com a planta do gênero Kalanchoe em um terreiro de candomblé, onde percebeu a sua aplicação dentro da tradição. A partir dessa vivência, surgiu a curiosidade científica: ela queria entender se aquilo que já tinha algumas propriedades conhecidas poderia ser comprovado em estudos laboratoriais. “Comecei a procurar evidências científicas e vi que já existiam estudos indicando atividade contra células tumorais. Foi quando passei a explorar esse encontro entre saber ancestral e ciência”, explica Lays. A etnofarmacologia Planta usada no candomblé motivou pesquisa sobre tratamento de câncer bobwardell/iNaturalist Esse tipo de abordagem faz parte de um campo chamado etnofarmacologia, que investiga o uso de substâncias naturais por grupos culturais específicos para fins medicinais. Para a pesquisadora, a proposta dessa investigação é criar uma via de mão dupla, traduzindo os conhecimentos desses grupos em algo seguro, controlado e qualificado. Conforme Lays, a etnofarmacologia tem três impactos principais: Contribui para o desenvolvimento de novos fármacos, já que muitos medicamentos atuais se originam de compostos vegetais. Amplia o entendimento sobre o uso seguro de plantas medicinais – ponto relevante, pois o uso indiscriminado pode causar intoxicações. Reconhece o valor dos conhecimentos ancestrais, muitas vezes tratados como “primitivos”, mas que carregam séculos de observação e prática. Planta usada no candomblé motivou pesquisa sobre tratamento de câncer iNaturalist/jeffreyaewick Apesar dos benefícios, a cientista faz um alerta: “Geralmente as pessoas tendem a acreditar que o natural é inofensivo, mas não é bem assim... existem diversos casos anualmente de intoxicação por plantas no país”. Segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), cerca de 1.500 casos de intoxicação por plantas são registrados anualmente no Brasil, o que comprova que o uso deve ser investigado minuciosamente. Acesso e desigualdade na saúde Prédio do Ministério da Saúde na capital federal. Divulgação Além do viés científico, a pesquisa tem forte impacto social. De acordo com a International Agency for Research on Cancer, as desigualdades sociais impactam diretamente todas as etapas do cuidado oncológico, desde a prevenção até o tratamento, com populações de baixa renda enfrentando menor acesso ao diagnóstico precoce e maiores taxas de mortalidade. Outra pesquisa, publicada no Asia-Pacific Journal of Oncology Nursing, aponta que fatores como renda, escolaridade e acesso ao sistema de saúde dificultam o início do tratamento e aumentam o risco de agravamento do câncer. Isso evidencia que a doença não é apenas uma questão biológica, mas também social.Esses dados se refletem no Brasil. Conforme reportagem recente da EPTV, afiliada da TV Globo, um estudo mostrou que mulheres atendidas na rede hospitalar privada têm mais chances de detectar o câncer de maneira precoce — o que aumenta a probabilidade de cura —, cenário que não se repete na rede pública. Tudo isso reforça a importância de pesquisas que busquem alternativas mais acessíveis, como a etnofarmacologia, que pode contribuir para o desenvolvimento de tratamentos mais baratos e próximos da realidade das populações vulneráveis. *Sob supervisão de Rodrigo Peronti. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2026/04/16/planta-usada-no-candomble-motivou-pesquisa-cientifica-sobre-o-tratamento-do-cancer.ghtml


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