'Talibã do Paquistão': como 'filial' de grupo islâmico afegão leva terror ao país vizinho e agrava crise
28/02/2026
(Foto: Reprodução) Mufti Noor Wali Mehsud (à dir.), líder do Talibã do Paquistão (TTP), e o vice Mufti Muzahim em imagem divulgada pelo braço de mídia do grupo, Umar Media, em novembro de 2021.
TTP
O Paquistão atacou, na madrugada desta sexta-feira (27), o Afeganistão e declarou uma "guerra aberta" contra o país vizinho depois da tensão entre os países escalar nas últimas semanas, com troca de tiros na fronteira.
▶️ Contexto: A tensão gira em torno do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), grupo que atua contra o governo paquistanês. O Paquistão afirma que militantes se escondem no Afeganistão e organizam ataques a partir de lá. O governo afegão nega.
O Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), conhecido como Talibã do Paquistão, é um grupo extremista que mantém uma insurgência armada contra o Estado do Paquistão desde 2007. A organização afirma querer derrubar o governo e implantar um regime rígido baseado na sharia, a lei islâmica.
O TTP é formalmente separado do Talibã que governa o Afeganistão, mas os dois grupos mantêm laços históricos, estratégicos e doutrinários.
O governo paquistanês sustenta que os chefes do TTP e grande parte de seus integrantes atuam a partir do Afeganistão. Islamabad também acusa o país vizinho de servir de abrigo para separatistas no sudoeste do Paquistão.
O grupo paquistanês ganhou notoriedade internacional após reivindicar o atentado contra a estudante Malala Yousafzai, baleada em 2012 por defender o direito de meninas à educação. Ela sobreviveu e se tornou símbolo global da luta por acesso à escola.
Paquistão bombardeia Cabul após declarar 'guerra aberta' contra o Afeganistão
Durante a guerra contra forças lideradas pelos Estados Unidos, combatentes paquistaneses atuaram ao lado dos insurgentes afegãos. Hoje, Islamabad acusa o governo vizinho de permitir que lideranças do TTP se abriguem em seu território e organizem ataques próximos das fronteiras — acusações que Cabul nega.
▶️ Mais contexto: O Talibã surgiu em 1994, com o Paquistão fornecendo apoio logístico, financeiro e militar ao grupo, que era composto majoritariamente por estudantes no país e no sul do Afeganistão. Eles se tornaram parte de grupos armados que lutavam contra a ocupação de dez anos da União Soviética no Afeganistão. Com um inimigo comum, em meio à Guerra Fria, os Estados Unidos treinaram e deram equipamentos aos combatentes, chamados de Mujahedin.
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Pessoas com bandeiras do Talibã na fronteira do Afeganistão com o Paquistão
Saeed Ali Achakzai/Reuters
Aliados históricos em confronto
O Paquistão tem sido o aliado mais próximo do Talibã afegão por décadas e ajudou a dar origem ao regime no início dos anos 1990 – como forma de conferir ao país "profundidade estratégica" em sua rivalidade com a Índia.
No entanto, desde que o Talibã retomou o poder em 2021 – volta que foi saudada pelo então primeiro-ministro paquistanês –, os dois países vêm enfrentando questões.
A aproximação diplomática do Afeganistão com o governo indiano, que começou com o envio de ajuda humanitária ao país a partir de 2022 e culminou com um encontro e anúncio de parcerias em outubro de 2025, não é vista com bons olhos pelo Paquistão.
"O que deu errado entre os dois países, creio eu, tem muito a ver com o fato de ter havido um aumento acentuado da violência militante no Paquistão desde que o Talibã afegão chegou ao poder", destacou a pesquisadora Farzana Shaikh à agência de notícias Reuters.
Soldados talibãs sentam-se ao lado de uma arma antiaérea enquanto vigiam os caças paquistaneses, na província de Khost, Afeganistão, em 27 de fevereiro de 2026
Reuters
Refúgio para terroristas?
O TTP trava uma guerra contra o Estado paquistanês desde 2007. O objetivo dos militantes é impor seu rígido modelo de governo islâmico, similar ao Talibã afegão, à nação predominantemente muçulmana.
Nos últimos meses, o grupo intensificou os ataques realizados. No começo deste mês, 31 pessoas morreram e outras 130 ficaram feridas em um atentado suicida a uma mesquita xiita em Islamabad.
Em novembro, após três anos sem ataques à capital, outro homem-bomba deixou 12 mortos e 27 feridos em frente a um tribunal.
Ataque suicida em mesquita do Paquistão deixa mortos e feridos
O Paquistão afirma que a liderança do grupo militante TTP e muitos de seus combatentes estão baseados no Afeganistão, e que insurgentes armados que buscam a independência da província de Baluchistão , no sudoeste do Paquistão, também usam o país como refúgio.
Cabul nega e, por sua vez, acusa o país vizinho de abrigar combatentes de seu inimigo, o Estado Islâmico, o que Islamabad nega.
Além dos atentados realizados contra o Estado paquistanês, o TTP lutou ao lado do regime afegão contra as forças lideradas pelos EUA no Afeganistão.
Escalada recente de violência
Autoridades paquistanesas dizem que a atividade do TTP aumentou desde a volta do Talibã ao poder, em 2021. O país enfrenta uma nova onda de atentados, especialmente em regiões próximas à fronteira.
Entre os ataques recentes estão uma explosão em uma mesquita em Islamabad, que deixou dezenas de mortos, e uma emboscada contra veículos policiais no distrito de Bajaur.
Como a violência escalou?
No fim de semana, o Paquistão fez bombardeios contra acampamentos de militantes do TTP e do Estado Islâmico no Afeganistão.
O Talibã, grupo que governa o Afeganistão, afirmou que daria uma “resposta apropriada e proporcional” aos ataques.
A operação afegã para retaliar os bombardeios foi feita nesta quinta-feira (26).
Tensão entre vizinhos
Para o governo paquistanês, a presença de supostos santuários do TTP além da fronteira representa ameaça direta à segurança nacional. A crise elevou a tensão diplomática e militar entre os dois países, com operações aéreas e troca de acusações, aumentando o risco de instabilidade regional.
Analistas apontam que o avanço do grupo reforça um cenário já delicado, em que militância armada, disputas fronteiriças e fragilidade econômica se combinam, tornando mais difícil qualquer tentativa de pacificação duradoura.